quarta-feira, 29 de junho de 2011

AS SERESTAS DOS NAMORADOS



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 1O DE JUNHO DE 2011

“Amar é ver o sol por entre a noite escura,
É sofrer na alegria de gozar na tortura...
É sofrer num verso do infinito desejo:
- viver por um sorriso e morrer por um beijo...”
             O verso acima está registrado no jornal “A Semana” de 11 de junho de 1953. É um belo poemeto que compunha a propaganda do Dia dos Namorados da Loja Imperial. A imprensa nos anos 50 era carregada de propagandas das lojas da cidade, sendo estes anúncios compostos pelos mais variados temas: lâmina de barbear, cigarros, elixir de todos os tipos e roupas. Escrever um poema parecia ser a maneira mais utilizada de se fazer uma propaganda na época, principalmente em datas especiais como o Dia dos Namorados.
            No domingo próximo, dia 12, comemora-se o dia dos namorados. Trata-se de uma tradição que remonta ao Império Romano, quando jovens militares foram proibidos de se casar, pois o imperador Claudius II acreditava que os solteiros combatiam melhor do que aqueles que compunham laços familiares. Assim, os clérigos cristãos foram proibidos de realizar matrimônio. Porém, conta-se que bispo Valentim celebrava as cerimônias de casamento às escondidas e por agir desta maneira foi preso e condenado à morte. Quando estava preso recebia secretamente bilhetes e cartas dos apaixonados que juntara em matrimônio. Em um 14 de fevereiro, no século terceiro, Valentim foi decapitado. Tempos depois, quando tornou-se santo, o dia de sua morte passou a ser considerado o dia dos apaixonados, dos enamorados.  No Brasil, a comemoração do dia dos namorados tomou outro caminho, uma vez que 12 de junho é a véspera do dia de Santo Antônio, conhecido como Santo Casamenteiro.
            Desde que a data do dia dos namorados foi estabelecida tornou-se hábito entre os casais a troca de presentes. Nos tempos atuais, o comércio passou a utilizar esta data como um atrativo aos enamorados. As propagadas televisivas começam a se manifestar quase um mês antes da data, de modo que os casais antes mesmo de pensarem na comemoração em si, pensem primeiro nos preços mais cômodos no momento de presentear um ao outro.
            Se pensarmos em tempos mais antigos, na época de nossos avós e bisavós, o presente também era o hábito de se comemorar o dia dos namorados. Mas, que tipo de presente era trocado entre um casal? As serenatas aparecem em primeiro lugar na maioria das mentes das pessoas. Num passado não muito distante, a serenata era a forma mais carinhosa de se expressar o amor pela namorada ou pelo menos àquela moça que se pretendia namorar. Caracterizadas pela tradição portuguesa, as cantorias populares tocadas em violas à beira das janelas eram feitas pelos apaixonados e exprimiam versinhos rimados que muitas vezes acertavam em cheio os corações das mulheres.
            Nos dias de hoje estas práticas caíram em desuso e os jovens comemoram o dia dos namorados focados na troca de presentes. Na realidade dos “novos tempos” pouco se vê versos poéticos trocados entre os namorados e quiçá serenatas. Versos como os de “Ranchinho e Alvarenga” ainda podiam fazer parte do Dia dos Namorados: “Meu violão em seresta à luz de um luar / a natureza em festa, tudo parece cantar / só eu tristonho na rua, sozinho, sem ninguém / vivo cantando pra lua a canção que é só tua meu querido bem”.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

AS LETRAS DE UM CORONEL



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 3 DE JUNHO DE 2011

“Deus disse à imprensa: vai e a justiça propaga.
E a imprensa, erguendo à boca a sonora tuba,
ora pomba a arrulhar, ora leão, a juba
em desalinho, foi e rolou como a vaga...”

            O verso acima está registrado nas folhas amareladas do jornal “O Correio de Barretos” do dia 14 de abril de 1957. Segundo a reportagem de onde foi retirado, trata-se de um verso de autoria do conhecido Coronel Silvestre de Lima datado aproximadamente nas últimas décadas do século XIX. Às vistas de Silvestre, tal verso fala do nascimento da imprensa e de sua função na sociedade, como se a mesma fosse disseminar a justiça social por entre os homens. Talvez, neste momento, se encontrava o despertar da veia literária e jornalística de um coronel bacharel que até os dias de hoje é citado na imprensa da cidade.
             Com mais de um século e uma década de fundação da imprensa criada pelo Cel. Silvestre de Lima em Barretos, seu nome ainda perpetua na imprensa talvez por ser a sua biografia um tanto distinta para a época. Tratava-se de um coronel letrado. A expressão “coronel letrado” pode parecer um tanto contraditória se tivermos a única visão de que os coronéis eram homens ligados somente às atividades agrícolas, proprietários de terras e também donos do poder político. Isso em boa parte do Brasil era verdade, mas exceções também fazem parte da história. E, em sua minoria, existiam coronéis que tinham suas atividades concentradas na intelectualidade, talvez como uma maneira de consolidar ou transformar princípios políticos. Como é o caso de Silvestre de Lima, bacharel e poeta.
            Por intermédios de leituras da época e de biografias recriadas na imprensa barretense, conta-se que Silvestre fez parte do movimento abolicionista no Rio de Janeiro, escrevendo textos em jornais e lutando ao lado de José do Patrocínio. Nesta mesma época, intelectuais organizavam-se em um movimento literário conhecido como “Parnasianismo”, isto é, uma onda de poetas em oposição à subjetividade e o sentimentalismo do Romantismo. Os parnasianos valorizavam a métrica poética, as referências aos elementos greco-romanos e a objetividade dos versos. Por conta disso, foram muito criticados pelos modernos da década de 20.
No jornal “O Sertanejo”, fundado por Silvestre, exibiam-se poesias de sua autoria e de famosos poetas da capital federal. Poesias parnasianas escritas por Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Olavo Bilac e Silva Jardim, estampavam as páginas do jornal de Barretos como elementos essências à leitura. Caracterizadas pela norma culta, sua leitura nem sempre é de fácil compreensão, ainda mais, porque por utilizarem nomes conhecidos no mundo da Antiguidade.
Os registros que restaram ao presente indicam que a poética de Silvestre de Lima era parnasiana. Entretanto, sua linguagem poética parece também apresentar peculiaridades, como o fato de fazer referências as suas filhas em suas poesias. Os lados da política, da economia, da cultura e da intelectualidade de coronéis como Silvestre de Lima ainda merecem ser estudados, pois suas particularidades devem ser registradas. Afinal, a história não deve generalizar as personalidades, deve buscá-las no quão íntimo for possível para não se tornar senhora de uma verdade só.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

DE MAIS E DE MENOS




ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 27 DE MAIO DE 2011
           
            Esquecimentos, dores físicas, stress e outros destes atribuídos fazem parte da rotina de muitas pessoas nos dias de hoje. Rotina, literalmente. A gama de informações que envolve o nosso cotidiano e as exigências sociais, que, por vezes, nos são impostas de maneira indesejável, podem ser nocivas à saúde. Na condição de “civilizados”, às vezes somos escravos do “demais” e do “de menos”, trabalhamos demais, preocupamo-nos demais, falamos demais, ouvimos menos, exercitamo-nos menos e dormimos menos.
            Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o tempo que vivemos hoje é caracterizado por um ritmo muito inconstante, onde o presente se renova a todo momento. Por exemplo, neste tempo as informações transmitidas de uma pessoa a outra, independente da distância entre as mesmas, são quase instantâneas. O tsunami no Japão foi notícia no mundo todo em apenas alguns minutos do início da tragédia. As pessoas buscam por novidades o tempo todo, seja na moda ou até mesmo em seus objetos pessoais. Somos movidos por uma insaciabilidade do novo, sendo que, segundos depois, aquilo não é mais novo, pois outro já tomou o seu lugar. Á esse tempo, Bauman estabeleceu a seguinte denominação: “tempo pontilhado”, ou seja, um tempo marcado por rupturas e descontinuidades, fragmentado em meio a múltiplos instantes.
            Pois bem, o mundo visto por esta ótica parece até mesmo pessimista. Mas, a realidade em que vivemos é pautada nisso, num tempo inconstante, em que as coisas se renovam com muita facilidade e rápido demais. Por conta disso, criamos um estilo de vida também baseado na produção rápida e na exigência, principalmente no lado profissional, onde cada vez mais competência é sinônimo de concorrência. E às pessoas que não conseguem se equilibrar mediante a este estilo de vida, podem ter a saúde afetada.
            Stress, dores em várias partes do corpo, enxaquecas e cefaléias podem ser desenvolvidas em pessoas que se tencionam com situações inconstantes do dia-a-dia. Mesmo a enxaqueca sendo uma doença acometida por pessoas que possuem pré-disposição genética, ela pode se agravar conforme fases difíceis da vida. No caso da cefaléia tensional, causada pela tensão ou por ansiedade dos indivíduos, as dores também podem ser muito constantes e intensas. Casos como estes são resolvidos à base de tratamentos médicos, que, na maioria das vezes, além de remédios, orientam também a prática de exercícios físicos e uma alimentação saudável.
            Quer dizer, tudo aquilo que perdemos com esta vida do tempo pontilhado e das cobranças, isto é, os atributos mínimos de sobrevivência, como a prática de exercícios na luta contra o sedentarismo mórbido e a alimentação saudável, acabam sendo os remédios que mais necessitamos quando nos desequilibramos. A pergunta é: será que compensa viver nestes extremos do “de mais” e do “de menos”? A busca pelo equilíbrio certamente não é fácil, mas, do que vale a vida sem o sentimento de viver? Afinal, com ou sem preocupação, tudo sempre dará certo!    

sexta-feira, 20 de maio de 2011

SOBRE AS RUAS



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 20 DE MAIO DE 2011

            Em tons poéticos ou em análises históricas, as ruas foram ao longo do tempo descritas em livros das mais variadas tipologias. Falar sobre o nascimento de uma rua pode gerar teses acadêmicas no âmbito da história, geografia, biologia, geometria e outras áreas. Por outro lado, a rua descrita nas mãos de um poeta ou literato pode se transformar num lugar mágico onde a fantasia toma conta do espaço físico.
            Na literatura brasileira, precisamente no início do século XX, João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, descreve as ruas do Rio de Janeiro num momento de transformação da cidade carioca, decorrente das reformas do período republicano. Nesse período, as ruas passavam pelo processo de alargamento e crescente verticalização em conseqüência da intervenção urbanística do prefeito Pereira Passos, que tinha por finalidade elevar a capital federal à categoria de “pequena Paris”. João do Rio, na sua órbita de poeta sensível, usa sua caneta de pena para dar às ruas aquilo que elas pareciam estar perdendo com todas estas transformações: a alma. Para ele: “são assim as ruas de todas as cidades, com vida e destinos iguais aos dos homens. Por que nascem elas? Da necessidade de alargamento das grandes colméias sociais, de interesses comerciais dizem. Mas ninguém o sabe. (...) Nasceu para evoluir, para ensaiar os primeiros passos, para balbuciar, crescer, criar uma individualidade”. 
            Pois bem, enquanto João do Rio efervescia a imprensa carioca com suas crônicas, contemporaneamente, Barretos também passava por transformações nas características de suas ruas. Formadas por quarteirões, sistema adotado desde o Império Romano, as ruas e avenidas de Barretos passaram a ser denominadas por números desde o ano de 1915, no mandato do prefeito João Machado de Barros. Osório Rocha, em seu livro “Barretos de Outrora”, relata que o patrimônio foi dividido em 283 quarteirões, sendo incorporadas ao espaço urbano algumas vilas novas.
            Antes desta reforma, as ruas possuíam nomes ligados aos personagens da história do Brasil no momento da proclamação da República, a fatos históricos do Império e aos coronéis que em Barretos dominavam o poder político. Por exemplo, só sob a denominação “República” existiam duas ruas e duas avenidas. Um dos casos mais interessantes é a Rua 14, antes denominada Rua “Prudente de Morais” ou Rua “Comércio”. Esta rua, no final do século XIX, era conhecida por alguns como “Rua da Lindeza”, por conta de suas belas casas e instalações importantes como o cartório e o Colégio São João.
            Por fim, as ruas de Barretos na atualidade continuam com o sistema adotado por Barros em 1915, mas, novas ruas criadas foram adotadas com denominações de pessoas consideradas “ilustres” à cidade, onde a intenção é perpetuar a memória destes cidadãos. As ruas de Barretos têm muito a refletir sobre a história da cidade, desde o momento em que nascem até o momento em que mudam de nome. Não são simples espaços físicos nos quais o comércio cada vez mais as engole, são fontes de inspiração e de história. Têm alma, como já mostrou João do Rio.

A CULTURA AFRICANA NO “13 DE MAIO”



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 13 DE MAIO DE 2011

            Nesta sexta-feira 13 o enfoque não deve ser nada supersticioso, a história deve prevalecer como a temática do dia.
Treze de maio é o dia de comemoração à abolição da escravatura no Brasil, data em que no ano de 1888 a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea que justificou a desvinculação do negro à condição de escravo. Na escola, esta data é lembrada por muitos professores de história como um marco na história do Brasil e para a cultura afro brasileira e africana.    Datas como estas, na atualidade, são comemoradas com a intenção de valorizar a cultura africana em vez de rememorar a época da escravidão. Por esse e outros motivos, proponho um 13 de maio diferente, no qual possamos vivenciar experiências de africanos que mostraram ao mundo o valor de seu continente e de sua cultura.
            Africanos como a nigeriana Chimamanda Adichie, escritora de romances que comoveu um grande público numa palestra em que prestou depoimento sobre sua vida na África e a cultura na qual foi criada. Esta palestra foi gravada e circula em vídeos na internet com grande sucesso. Chimamanda intitulou a palestra de “o perigo de uma história única”, isto é, como uma única visão da realidade pode a deixar deturpada e carregada de preconceitos. A experiência da nigeriana causa forte impacto a quem ouve, pois é visto como nós podemos ser causadores de preconceitos e ao mesmo tempo sofredores com o mesmo preconceito.
            Chimamanda nasceu e cresceu na Nigéria numa família de classe média, contou que desde muito cedo aprendeu a ler e a escrever. Passou sua infância lendo livros infantis de autores ingleses, de personagens ingleses, ou seja, brancos, de cabelos lisos e loiros, que brincavam na neve e falavam muito sobre o clima. Algo bem diferente da realidade africana. O fato é que de tanto ler e adorar estes livros ela entendia que pessoas como ela, negros e de cabelos crespos, não poderiam fazer parte da literatura. No entanto, quando ela descobriu os autores africanos que escreviam livros sobre os próprios africanos, sua visão de que os livros só poderiam reproduzir a visão de uma história única começou a ser questionada.
            Ainda mais, Chimamanda conta sua experiência de aos 19 anos ter ido para os EUA cursar a faculdade. Neste momento, o choque cultural foi muito grande, já que sua amiga de quarto dizia ter esperado uma africana que falasse línguas tribais e ouvisse músicas também tribais. O espanto foi grande quando a nigeriana explicou que no seu país o inglês era a língua oficial e que suas canções preferidas eram a de Maraya Carey.
            Enfim, o perigo de se sempre contar e ouvir a história única cria esteriótipos a pessoas e a lugares que na verdade nos deixam cegos quanto à verdade. Julgar a realidade do outro de acordo com a sua realidade é algo dessincronizado e nos deixam sujeitos a cair no marasmo do pré-conceito. Que neste 13 de maio, portanto, possamos conhecer melhor a alma da cultura africana, que, assim como nós, em relação ao olhar da história única, precisa ser resgatada e colocada no seu verdadeiro lugar: nos livros.      

DOCUMENTO HISTÓRICO



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 6 DE MAIO DE 2011 

            Leitor amigo, o que é na sua concepção um documento histórico? Quais são os tipos de fontes que um historiador utiliza como trabalho? Trabalhar com uma fonte de estudo que remete a determinado período passado da humanidade sempre foi o ofício do historiador, mas o conceito sobre o que é documento histórico é relativo a cada época e a cada escola histórica. Documento seria somente aquilo que é produzido pela classe política dominante ou tudo aquilo que foi produzido por diversos grupos sociais?
Desde fins do século XVIII e início do XIX, a história se assumiu como acadêmica, isto é, disseminada em pesquisas e em faculdades, e, como tal, seguiu instruções de cada período e contexto histórico. A partir de então, surgiram as escolas históricas, que assumiram características diferenciadas sobre a concepção do que é história e sua fonte de estudo, são elas: a Escola Positivista, a Escola Metódica, a Escola dos Annales e suas diversas gerações e o Pós-Modernismo.
Para os positivistas do século XIX, o documento histórico era tudo aquilo que foi escrito pelos reis, os documentos oficiais, exemplos de escritos sobre mitologia indígena, por exemplo, eram descartados. Tempos depois, com o advento dos metódicos, o documento oficial, aquele produzido pelo Estado, era a fonte de estudo do historiador desde que seguisse uma seleção, classificação e método de estudo. A partir da terceira década do século XX, a Escola dos Annales surge em contraposição aos temas e as noções de documento histórico defendida pelos positivistas e metódicos.
Os historiadores dos Annales, associados à interdisciplinaridade da História, diversificaram completamente seus temas, bem como a tipologia de suas fontes. Para eles, o estudo da história deveria ser pautado em experiências dos vários grupos humanos, e, com isso, tudo aquilo que foi produzido por eles seria passível de análise histórica. É neste momento que surge como documento histórico, não só aquilo que era escrito pelo Estado, e sim a oralidade, a imagem, as séries de documentos de batismos, casamentos e óbitos.
Com as seguintes gerações dos Annales, esses grupos sociais estudados pela história foram se ramificando cada vez mais até se chegar numa história quase que do “sujeito”, do individual. Nesse sentido, houve um alargamento das noções de fontes históricas, como mapas, gravuras, desenhos, cartas, roupas, alimentos e outros. O importante de ressaltar sobre isso, é que alguns historiadores chamam essa fase de “vulgarização da história”, como se qualquer coisa que se remete ao passado fosse passível de análise histórica. Noções como essa deram base para o surgimento do pós-modernismo, movimento que encara a análise e a fonte histórica como relativa ao olhar do historiador do presente. Sendo que, na realidade, as fontes só são consideradas históricas quando são encaixadas no contexto e na estrutura do tempo determinado.        
Enfim quantas faces tiveram um documento ao longo da história da história? Como será encarada uma fonte histórica no futuro? Tudo isso nos leva a crer que “um documento é tudo aquilo que um determinado momento decidir que é um documento”.

REFERÊNCIA: Texto de Leandro Karnal e Flávia Gali Tatshc (2009).    

UM CASAMENTO EXTRA-CONTINENTAL



ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 29 DE ABRIL DE 2011

            Hoje é um dia importante para a família real britânica, “o dia do casamento do Príncipe Willians e a “plebéia” Kate Middleton”. É assim que a mídia televisiva tem anunciado suas últimas noticias há pelo menos duas ou mais semanas. Por tamanha repercussão, esta não é uma data marcante somente para a realeza e para seu povo, bem como para a imensa quantidade de jornalistas que ficarão falando sobre este assunto pelas próximas semanas. Graças às tecnologias cada vez mais “sem-fronteiras” da era atual, todos os detalhes deste casamento poderão ser revelados. Se no passado, o casamento de um rei causava impacto na região que ele vivia, hoje este impacto perpassa espaços continentais.
            Até mesmo nas escolas este assunto é transmitido pelos alunos constantemente, a curiosidade sobre os Windsors cresce a cada dia. Os alunos param para entender como pode no mundo de hoje existir ainda uma monarquia, mesmo que parlamentarista, e atribuem a este fato um caráter medieval. A rainha Elizabeth II, nos últimos tempos, tem atuado como uma figura tradicional da coroa britânica, porque na realidade o país e seus territórios anexos são comandados pelo primeiro-ministro. É claro que a figura da rainha não agrada a “gregos e troianos” na Inglaterra, para uns ela é considerada uma tradição respeitável, e para outros é tida como algo anacrônico, em principal aos jovens.
            Outro fato que repercutiu muito sobre a vida da coroa britânica foi o lançamento do filme “O Discurso do Rei”, que ganhou o prêmio de melhor filme, ator, diretor e roteiro original do Oscar 2011. O filme fazia menção às dificuldades do rei George VI (pai da atual rainha Elizabeth) em discursar perante o povo, porque era gago e tímido. A história é focada na relação do rei com seu “médico” que tanto o ajudou na superação em discursar em público, tratam-se, pois, de fatos reais. As gravações também mostram os escândalos causados pelo herdeiro do trono antes de George VI, seu irmão Edward VIII, que abdicou do trono por não poder se casar com a mulher que amava, a americana divorciada Wallis Simpson (algo inadmissível na época).
            Depois deste, outros episódios abalaram a fama da família real britânica, como o divórcio da Lady Diana e do Príncipe Charles. A popular princesa divorciou-se do herdeiro do trono ao ficar exposto na mídia a traição do marido com sua amante Camilla Parker-Bowles, hoje sua esposa. Lady Diana acabou por falecer em 1997 num trágico acidente de carro, sendo que em seu funeral a Rainha Elizabeth II tratou o cerimonial com muita frieza e isso fez cair mais ainda sua popularidade no país.
            Enfim, depois de tantas cenas que mais parecem fazer parte de uma novela, mais um casamento é concretizado na família real Windsor. Seja como símbolo de tradição, alvo de comentários, estandarte de críticas ou simplesmente mais uma união de pessoas que aparentam estar apaixonadas, o casamento do Príncipe William com Kate Middleton ganhou dimensões extra-continentais. Um casamento que está imbuído de fortes expectativas populares, carregado de um passado tão “dramático” da família real e conhecido pelo mundo inteiro.