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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O RETORNO DO BUSTO E DA COLUNA À PRAÇA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 22 DE DEZEMBRO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS    


Coluna e Busto de volta à Praça Francisco Barreto,
com destaque à alegoria feminina da República,
 ao rosto de Tiradentes e ao escravo se libertando
das algemas (Abolição).
Foto: Karla Armani Medeiros

            Quem passa pela Praça Francisco Barreto agora se deparará com dois velhos conhecidos, a Coluna Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil e o Busto da República. A coluna com a herma permaneceu como monumento central à praça, no mesmo local, por 76 anos, de 1922 a 1998; quando foi retirada dali numa “reforma”. O busto ficou mais de 20 anos guardado no museu e agora volta a encenar a praça. Muitas pessoas têm memória afetiva daquela “mulher sem braço”, inclusive, alguns achavam ser a Princesa Isabel. Um equívoco. Seu significado é atemporal.

Livro "De onde cantam as cigarras", de Karla Armani,
com capítulo dedicado ao estudo das comemorações
do Centenário da Independência do Brasil em Barretos.

            A coluna e o busto foram instalados na praça em 7 de setembro de 1922, durante as festividades de comemoração dos 100 anos da Independência do Brasil (1822/1922), as quais foram celebradas por três dias na cidade (6, 7 e 8 de setembro) por órgãos públicos, através do Prefeito Dr. Antônio Olympio, escolas, escoteiros, instituições e o Grêmio. Inclusive, a participação do Grêmio foi essencial, através da leitura da Conferência “Hosanna”, escrita especialmente a Barretos por Coelho Netto, em que falava sobre a Independência do Brasil destacando valores e símbolos também retratados na coluna: a República, a Abolição e Tiradentes. O mesmo monumento foi instalado no salão principal do Paço Municipal, hoje Museu.

            Então, se o monumento era para comemorar os 100 anos da Independência por que os seus símbolos exaltavam a República? Porque os monumentos, mesmo quando se referem ao passado (Independência), tem a intenção de eternizar os valores do presente (a República). Por isso, ao se referir à Independência do Brasil, ao invés de exaltar os feitos monárquicos (figuras de Dom Pedro I e Leopoldina), os intelectuais da época preferiam contar sobre a Independência com olhares republicanos e cívicos, destacando o mártir Tiradentes (que durante a Inconfidência Mineira, 1789, já defendia o Brasil independente); além dos pleitos da Abolição e da República, o que explica a figura do escravo se libertando das algemas e a figura da República na coluna. Portanto, não há disparidade em comemorar a Independência com símbolos visivelmente republicanos, o que existe ali é a intencionalidade de recontar a história do Brasil com olhares novos, com narrativas que valorizassem as ideias daquele presente, 1922.

Destaque à coluna comemorativa e ao busto
no livro "De onde cantam as cigarras",
de Karla Armani.
          Aliás, 1922 foi um ano importante à história do Brasil, pois, justamente por ser o ano do centenário da Independência, a história do país foi revisada, principalmente por grandes instituições como o Museu do Ipiranga. Em setembro de 1922, o país todo comemorou o centenário da Independência com festividades parecidas com essa de Barretos, e colunas e hermas foram instaladas em vários municípios brasileiros. No Rio de Janeiro aconteceu a “Exposição Internacional do Centenário da Independência” com a participação de artistas nacionais e estrangeiros. Inclusive, Luiz Bernardi, dono de relojoaria em Barretos, participou com seus trabalhos artísticos. Barretos, portanto, ao instalar aquele monumento na praça não estava praticando um ato isolado, do prefeito ou do Grêmio, ao contrário, estava se conectando e se reafirmando aos ideais da política e do imaginário republicano. Uma cidade moderna, que aplaudia a República.

            Sobre ela, a República, não era um artigo feminino somente na língua latina, era também representada pela figura de uma mulher. Essa alegoria não é brasileira em si, o Brasil importou da França, assim como outros países. Durante a Revolução Francesa, 1789-1799, a monarquia foi deposta para a instalação da República e para simbolizar este novo regime a imagem usada foi de uma “mulher”. Uma das explicações para tal era que a Monarquia era geralmente representada por reis, homens mais velhos. Para se contrapor, então, a República seria representada pela figura de uma mulher, jovem e sadia, adicionando ainda o barrete frígio vermelho à cabeça; historicamente um símbolo de liberdade. A alegoria da República recebeu o nome de “Marianne”, francês, uma alusão aos nomes populares “Maria” (mãe de Cristo) e “Ana”.

            Assim sendo, a República brasileira, importada à francesa Marianne, tornou-se barretense mais do que nunca em 1922, e, agora, retorna ao seu posto não para valorizar aquela República - que, apesar de simbolizada por uma mulher, excluía as mulheres da cidadania e as reprimia - e sim para nos fazer pensar qual Marianne queremos à nossa política atual. A releitura de Marianne cabe a cada um de nós. A República que queremos, somos nós quem fazemos. Viva Marianne! Agora, ela vive.


Fonte:

MEDEIROS, Karla O. Armani. De onde cantam as cigarras: o Grêmio Literário e Recreativo como sala de visitas de Barretos - 1910/1945. Barretos: Edição da Autora, 2020.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

“POR TRÁS DA ESTANTE”

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 27 DE OUTUBRO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS  

Livro "Por trás da estante: Histórias da Meia-Noite
de Machado de Assis", de Vizette Priscila Seidel.

(Autor da capa e imagem: Guilherme Silveira).
    Vizette Priscila Seidel, que por anos foi professora de língua portuguesa e francesa em Barretos, acaba de lançar seu livro: “Por trás da estante: Histórias da Meia-Noite de Machado de Assis”. Obra de origem acadêmica, fruto de intensas pesquisas na Literatura brasileira e na história cultural, revela uma fase inicial de Machado de Assis. 
    A autora analisou a coletânea “Histórias da Meia-Noite” de Machado de Assis, publicada em 1873, pela editora do francês Baptiste-Louis Garnier. Mesmo editor do “Jornal das Famílias”, periódico carioca em que Machado publicou 21 contos de 1870 a 1873, selecionando 6 deles para a coletânea. Mesmo, na “Advertência”, Machado dizendo que as páginas de seu livro eram “desambiciosas”, Vizette produziu um rico estudo provando que, na realidade, ao selecionar 6 contos e excluir outros 15, o autor tinha um projeto de edição do livro. O escritor fluminense ali traçou o início de um projeto estético-literário antirromântico, utilizando, no entanto, temas e diálogos com os escritores românticos do período. Tal projeto foi refinado nos anos seguintes. 
    Neste período do Romantismo no Brasil, desde a fase indianista, os escritores eram pressionados a escrever ressaltando o exotismo, a cor local, a fauna e flora – características que tinham a intenção de ferventar uma identidade nacional; apesar de oriundas das escolas literárias francesas. No entanto, Machado de Assis, (como sempre), enxergava que a literatura brasileira não se limitava a isso, necessitando expor as questões sociais e a diversidade cultural. Para tanto, nos contos de “Histórias da Meia-Noite”, retratou os temas prezados pelos românticos, todavia, em contraponto, usou de forma sútil o recurso da ironia, da galhofa e até da sátira. 
    O mérito da obra de Vizette Priscila está em analisar criteriosamente os contos selecionados, bem como os contos exclusos, nos mostrando que na obra machadiana nada é por acaso. Por trás da estante houve projeto de edição, ambição, critério, ironia, diálogo e, claro, a genialidade de Machado.

domingo, 13 de setembro de 2020

FOTOGRAFIAS E SEUS USOS - PARTE II

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 4 DE AGOSTO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

As fotografias de acervo familiar são de suma importância para a revitalização e construção do trabalho histórico. Várias famílias guardam em gavetas, umas com mais afeto e outras menos, fotografias amareladas de seus antepassados; muitas vezes sem nem imaginar o valor que aquelas imagens possuem à história da cidade, da região e do país. Nos tempos atuais, com os processos rápidos de digitalização, inclusive por celulares, facilmente pode se salvar uma relíquia histórica digitalizando-a, promovendo acesso e a possibilidade de estudo de certos períodos do passado da cidade. Para isso, basta um pouco de consciência de cidadania, ao permitir que arquivos públicos e históricos dos municípios tenham acesso a estes ricos materiais. Na História, fotografias de família não se resumem a personificar mitos e heróis, ao contrário, permitem construir o coletivo de uma comunidade a partir de experiências individuais.

            Assim aconteceu, por exemplo, com algumas fotografias que consegui captar para a produção da minha obra “De onde cantam as cigarras”. Através de contato de familiares, consegui encontrar fotografias da única mulher fundadora do Grêmio Literário e Recreativo, Maria Isoleta Carneiro Vieira. Na verdade, o Grêmio possuía sua imagem, mas somente sua bisneta pôde fazer o reconhecimento da personagem (de São Paulo, em conversa por celular). Com a mesma pessoa, consegui imagem de duas icônicas personalidades femininas da cidade, a poetisa Carmelitana d’Arantes (colaboradora de “O Sertanejo” e tia de Isoleta) e de Maria Olympia Vieira Marcondes, filha do dr. Antônio Olympio – personagem a qual recebeu como homenagem o nome da vizinha cidade de Olímpia. Além destas, estampa o último capítulo fotografias encantadoras das pianistas barretenses Haydée Oliveira Menezes e Adelaide Galatti nos anos 1930 e 1940, também originadas de suas tão queridas sobrinhas.    

Desta forma, fica o exemplo de como as fotografias da sua gaveta podem descongelar rostos e vozes, além de promover algo maior: a História. [fim].

FOTOGRAFIAS E SEUS USOS – PARTE I

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 28 DE JULHO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

            Fotografias são apaixonantes, é claro. Eternizam momentos, cenários e rostos, como se fossem capazes de viajar por uma máquina do tempo trazendo à tona pessoas e paisagens. Pelo olhar do fotógrafo, repleto de intencionalidades, uma fotografia antiga é parceira fiel numa pesquisa de História. Isso porque ela não só evidencia informações visíveis sobre como era um local ou as características das pessoas, mas também torna-se fonte para se entender a mentalidade de certa época a partir do objetivo de seu autor, do local onde foi publicada, por quem foi comprada, onde foi exposta e assim por diante.

            Na História, uma fotografia não é somente uma fotografia. É uma fonte. E fecunda. Naturaliza e desnaturaliza ideias.

            Isso é bem visível em meu livro recém lançado, “De onde cantam as cigarras”, pois, durante as pesquisas, encontrei fotografias de personalidades e paisagens de Barretos no início do século XX em jornais e revistas de expressiva circulação nas capitais do Brasil e do estado de São Paulo. Como exemplo, a fotografia da quermesse realizada em 1911 em benefício da criação da biblioteca do Grêmio Literário e Recreativo, que acontecia no Jardim Público da cidade, publicada na revista carioca “O Malho” do Rio de Janeiro. Na imagem, além de aparecer personagens conhecidos da imprensa local (inclusive, Almeida Pinto) e professoras, a legenda enaltecia os feitos culturais da tão distante Barretos. Algo semelhante do ocorrido em 1920 com a publicação de fotografias na revista paulista “A Cigarra”, as quais estamparam a visita do escritor Coelho Netto ao Grêmio e às residências de seus amigos em Barretos; cujo teor destacava a cidade como destino de interlocuções literárias. As imagens e suas redações, enviadas pelos próprios barretenses aos seus mediadores da grande imprensa, serviam como suporte de evidência de modernidade à “cidade do boi”, que precisava mostrar beleza e erudição, em contrapartida de sua fama de violenta, isolada e boca do sertão. [continua].

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

115 ANOS DE ZÉ DE ÁVILA (PARTE III)

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 24 DE SETEMBRO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 
José de Ávila ainda jovem.
(Fonte: acervo original pertencente à família)

            Já amarelados pelo tempo, os livretos de Zé de Ávila revelam prefácios notáveis assinados por amigos escritores do poeta - a maioria do universo literário das trovas. São prefácios que destacavam a capacidade do trovador em ligar-se diretamente ao leitor, não só pelo diminuto tamanho das trovas (de fácil leitura e estética atraente), mas pelas palavras simples e temáticas humanísticas.
            A começar pelo livro “Chuva de Flores” (1974), cujo prefácio foi assinado pela poetisa, escritora, professora e musicista Carolina Ramos, de Santos, e presidente da União Brasileira de Trovadores à época. Para sintetizar a competência do trovador, Carolina poetizava: “Zé de Ávila, também ‘contraiu’ a trova. Sim, porque o trovar é febre. Febre por vezes, intermitente, mas sempre difícil, ou impossível de ser curada”.
            Outro vulto de trovadores no Brasil era o crítico literário e escritor nordestino Aparício Fernandes (1934-1996), que prefaciou o livro “Prata de Casa” descrevendo Zé de Ávila de forma sútil e literária: “Zé de Ávila é um homem sereno, que sabe explorar os ricos filões do seu mundo interior mas que lá não permanece como um avarento guardado de tesouros. Pelo contrário, retorna, com as mãos cheias de pérolas e flores, e com eles adorna e enriquece este mundo tão carente das belezas do espírito. É verdade que em seus olhos nota-se às vezes a melancolia dos que se habituaram a filosofar e seus lábios nem sempre conseguem esconder um traço de ironia por saber que algumas de suas pérolas vão para os porcos. Mas – seria ele capaz de dizer – os porquinhos também não são criaturas de Deus?”.
            Além deste, o jornalista e contista Waldir de Luna Carneiro (1921-2019), no prefácio de “Loucura em Flor” (1983) foi feliz em dizer - (palavras nas quais finalizo esta série): “Zé de Ávila é para ler, reler e guardar, caro leitor, mas se um dia por descuido ou azar perder este volume, não se aflija, consulte sua inteligência e seu coração, os versos e as trovas de Zé de Ávila estão lá”. [fim].

Link da publicação no site do jornal "O Diário":

115 ANOS DE ZÉ DE ÁVILA (PARTE II)

Pintura produzida pelo artista WILSON CASSI.
(Fonte: acervo pertencente à Pinacoteca Poética
 da Academia Barretense de Cultura - ABC)
ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 17 DE SETEMBRO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 


            No último dia 12 de setembro, a Academia Barretense de Cultura expôs em ricas obras de arte as trovas do poeta José de Ávila (acadêmico in memoriam da cadeira 13), cumprindo honrosamente seu papel em imortalizar a obra de seus acadêmicos.
            À um literato como Zé de Ávila cabe leituras, releituras e interpretações diversas. Tudo isso por ele ter sido um leitor assíduo e escritor dedicado, acumulando grande repertório literário, o qual multiplicava trovas e sonetos de temáticas líricas, filosóficas e humorísticas em seus livretos. Mas, não resguardava a si todo esse conhecimento, visto ter sido integrante de importantes academias nos estados de SP, MG, GO e RJ, tais como: Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, a Arcádia de Letras de Alfenas, a União Brasileira de Trovadores, a Academia de Ciências, Filosofia e Letras de Anápolis – Goiás, a Academia Eldoradense de Letras, a Academia de Poesia Raul de Leone – Petrópolis (RJ) e a Academia Barretense de Cultura.
            Não só as trovas revelam a personalidade do autor, mas os prefácios de seus livros prestam este serviço de maneira crítica e histórica. São mais de 20 livros, alguns prefaciados por barretenses, já que Zé de Ávila por aqui viveu por muitos anos. Matinas Suzuki, Ruy Menezes, Henrique Prata, Sebastião Misiara, os irmãos Luiz Antônio e João Monteiro de Barretos Neto são alguns deles; além do artista Wilson Cassi cuja assinatura registra preciosas ilustrações de capa de alguns dos livros do trovador.
            Algo em comum norteiam os prefácios: a captação do lirismo do autor em suas trovas que versam sobre amor, natureza, filosofia e humor. Em todos os livros, encontram-se pensamentos sobre o amor romântico, a mulher, a vida no campo, o peão de boiadeiro, os animais (como ele amava cigarras e pássaros!), as flores, delírios e dramas sobre a vida. São impressões de trovas lidas rapidamente, mas que despertam em quem prefaciava os livros e em nós, meros leitores, inquietação, sorrisos, emoções e calor humano. Confortável, muito da vida coube naquelas pequenas trovas. [continua].

Link da publicação no site do jornal O Diário:

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

NOEMI NOGUEIRA, UMA PIONEIRA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 13 DE AGOSTO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS    


           
Profª NOEMI HILDA NOGUEIRA.
Fotografia original doada pela família
ao Museu "Ruy Menezes".
Noemi Hilda Nogueira é a personagem histórica do meu artigo da Coletânea “Escritores de Barretos em Verso e Prosa”, lançada no último sábado na ABC. Ao lado de 22 autores de contos e ensaios, meu artigo cintilou parte da vida da professora e tradutora, pioneira na imprensa barretense. Dar voz à Profª Noemi e destacar sua produção intelectual era uma necessidade. Uma releitura da história local, que se porta com seriedade à participação feminina no desenvolvimento cultural de Barretos.
            Noemi Nogueira, nascida em Resende-RJ em 1874, formada em Niterói em 1889, veio a Barretos em 1893, foi professora e a primeira mulher a colaborar no jornal “O Sertanejo” em 1900. Ao longo da história traçada pelo memorialismo barretense, por vezes ela foi citada por tal pioneirismo, embora o destaque maior fosse por ela ser filha do advogado e ex-intendente dr. Pedro Paulo de Souza Nogueira (1844-1938).    
Mesmo em poucas páginas, a biografia de Noemi precisava ser mais detalhada, inclusive para pulsar novos questionamentos e pesquisas. Seus parcos 37 anos de vida se materializaram quando nossa cidade iniciava seu desenvolvimento, em passos curtos. Uma cidade sertaneja, marcada por conservadorismo e politicagem, tinha raízes culturais de letramento e arte lançadas por personalidades como Noemi.
            Para compor o artigo da coletânea, me debrucei sobre a vida dela lendo todas as edições do jornal “O Sertanejo” disponíveis, entendendo os romances que ela traduzia, suas relações e mentalidade. Tive auxílio da família Nogueira, por intermédio da gentil sra. Noemi Affonso e do sr. Joseli Nogueira Lélis, pessoas as quais nutro profunda gratidão. Além, do Arquivo Histórico de Resende, que possuía alguns materiais sobre a família. Porém, essa pesquisa só foi viabilizada graças a gentileza da sra. Carmem Nogueira, hoje falecida, mas que, em 2014, tanto me ajudou com sua coleção do jornal “O Sertanejo”, hoje doada ao Museu Ruy Menezes. Fiz-lhe a promessa que o meu trabalho sobre Noemi, seria a ela dedicado. Promessa cumprida com gratidão.

Link da publicação no site do jornal "O Diário": 


Artigo original publicado no jornal "O Diário", 13/8/2019, página 2:

terça-feira, 6 de agosto de 2019

DINORÁ DE CARVALHO EM BARRETOS


ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 6 DE AGOSTO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS          

             
Dinorá de Carvalho: compositora, pianista e recitalista.
(Fonte: www.dinoradecarvalho.com.br)
Era 24 de julho de 1935 quando veio a Barretos a renomada pianista, compositora, maestrina e recitalista Dinorá de Carvalho. A primeira mulher a reger uma orquestra na América Latina, fundadora da Orquestra Feminina de São Paulo e a pioneira como membro na Academia Brasileira de Música (1945). Naquele ano de 1935, aos 40 anos, já possuía essa vasta experiência e era autora de obras importantes.
            Dinorá de Carvalho era mineira, de Uberaba, nascida em 1º de junho de 1895. Segundo nosso memorialista Osório Rocha, era ela parente do ex-prefeito de Barretos, o escritor Delcides de Carvalho (1880-1936). Dedicou-se à carreira musical desde jovem, quando se mudou para a capital paulista, concluindo seus estudos musicais no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em 1916. Era exímia compositora, admirada por seu colega de turma Mário de Andrade, e, seu talento como recitalista também chamava a atenção popular. Tamanho era seu dom, que, em 1922, o governo de Minas Gerais concedeu a ela uma bolsa de estudos em Paris, para seu aperfeiçoamento como pianista. De volta ao Brasil em 1924, dedicou-se em realizar concertos de piano e recitais, compor músicas, reger orquestra e ser professora de música. Mais tarde, foi ainda inspetora de Ensino Superior no Conservatório Dramático e Musical de SP e crítica musical em jornais da capital paulista. Faleceu em São Paulo, em 28 de fevereiro de 1980. Sua vida foi biografada pelo dr. Flávio Carvalho (Unicamp) em teses, livro e site, onde consta o registro de 169 partituras de autoria da compositora.
            Quando veio a Barretos, deixou no livro de visitantes do Grêmio Literário e Recreativo os seguintes dizeres: “Nesta casa, onde a mocidade sorri, onde muitas vezes aparece também a verdadeira arte, levo, pois, as melhores impressões e doce recordação”. E foi assim, disseminando música, cultura e arte, que Dinorá de Carvalho trouxe àquela Barretos dos anos 30 suas canções, impressões e a ilustre presença de uma mulher, obstinadamente, à frente de seu tempo. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CARVALHO, Flávio Cardoso de. Canções de Dinorá de Carvalho: uma análise interpretativa. Campinas, SP, 1996 (Dissertação de Mestrado, Unicamp, Instituto de Artes).
ROCHA, Osório Faleiros (obra póstuma). Reminiscências, volume III. Ribeirão Preto: Editora Cori, 199(?).

FONTE:
Livro de Visitantes do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos. (Acervo particular do GLRB).

Link da publicação no site do jornal "O Diário": 

Artigo original publicado no jornal "O Diário", 6/8/2019, página 2:

SERTÃO LETRADO

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 30 DE JULHO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS


            Dia 25 de julho foi comemorado o Dia Nacional do Escritor, data instituída por decreto governamental desde 1960, através da iniciativa da União Brasileira de Escritores posterior a realização do I Festival de Escritores Brasileiros.
O talento do escritor brasileiro é secular, atemporal e ultrapassa gerações. Numa extensão continental e acumulando mais de cinco séculos de origem, o Brasil abraça escritores em toda sua extensão, de norte a sul. Incluindo, portanto, autores regionais, cuja produção alcança todos os brasileiros, traduzindo a diversidade do nosso povo.
            Em Barretos, por exemplo, grandes escritores nasceram e viveram aqui, levando o nome do “chão preto” por todo o país. Jorge Andrade (1922-1984) é um dos barretenses mais conhecidos na dramaturgia e literatura nacional, pois suas peças teatrais e novelas foram transformadas em livros, além de ter sido autor de romances. A Biblioteca Municipal Affonso d’E. Taunay abriga obras dele e de diversos barretenses.
Em outra perspectiva, Barretos foi passagem de visitantes ilustres na literatura no início do século XX. Literatos como Coelho Neto e Martins Fontes visitaram a cidade em 1921 e 1922 respectivamente, assim como Tasso da Silveira em 1934 e Menotti del Picchia em 1943, importantes nomes do modernismo. Além deles, mulheres escritoras também se fizeram presentes, como a espanhola Bélen de Sárraga em 1911 e a gaúcha Andradina de Andrade e Oliveira em 1921. Tais escritores, em geral, eram recebidos por autoridades na estação ferroviária e conduzidos a locais de congraçamento cultural, como o Grêmio Literário e Recreativo, a U.E.C, teatros, etc.
Apesar de ser uma cidade marcada pelo isolamento sertanista, fim de linha da ferrovia e conhecida como perigosa, Barretos também era rota de cultura, letramento e sociabilidade. Um paradoxo que nos traduzia numa espécie de “sertão letrado”, ao menos para parte restrita da população. Exemplo que a literatura brasileira brota nos mais improváveis solos. Fonte fecunda!

FONTES:
Livro de Visitantes da Santa Casa de Misericórdia de Barretos;
Livro de Visitantes do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos.

Link da publicação no site do jorna "O Diário":


quarta-feira, 22 de maio de 2019

O MEMORIALISMO DE VAF (PARTE II)

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 14 DE MAIO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS

           Memorialista no sentido de escrever sobre “história” e “passado”, Virgílio Alves Ferreira (1880-1966) elencava na coluna “Ecos do Passado”, no jornal “A Semana”, assuntos de diversos teores. Inclusive, sobre situações do presente (especialmente as décadas de 1930 a 1950), mas sempre retomando ao passado para nelas chegar. Fazia uma ponte entre passado e presente em quase todos seus textos, todavia, sempre considerando o pretérito como o tempo do bem e da harmonia. Um saudosismo literário.
            Versado na erudição e baseando-se em clássicas leituras, Vaf, como assinava no jornal, tecia verdadeiras narrativas literárias para expor suas opiniões. Em pelo menos 24 textos da coluna “Ecos do Passado”, na maioria, fica evidente que para se chegar a uma conclusão, o articulista se manifestava através de contos e ensaios criados por ele.
            Em 1947, por exemplo, para criticar certos comportamentos da “mulher sabida demais” (avanços sociais femininos), ele criou um conto denominado “Rosa”. Neste, ele enaltecia os tempos em que a mulher se dedicava mais à maternidade, a delicadeza e ao lar. Assim como fez em outra narrativa literária sobre uma figueira selvagem para falar sobre o pecado da inveja. Aliás, assuntos sobre moralidade e religião eram recorrentes em seus textos: ingratidão, egoísmo, velhice, inveja, morte e obediência.
            Personagens da história do Brasil, como Dom Pedro II e Duque de Caxias eram sempre valorizados por ele. Temas sobre a economia (carestia, custo de vida e liberalismo empresarial), problemas sociais (período de seca e trabalhadores do campo) e política (republicanismo paulista) também se movimentavam em suas narrações. Além disso, fazia questão de registrar a história das cidades em que ele viajava, como Araxá, Uberaba, Belo Horizonte, Igarapava (cidade natal) e Serra Negra.   
            Assim, a denominação de sua coluna “Ecos do passado” justifica a forma pela qual Vaf trata este “passado”, não como mera recordação, mas como reflexo e algo que devia ser ressoado. Para ele, é no passado que se permaneceu a glória. [fim].

Fontes e referências bibliográficas:
ROCHA, Osório. Barretos de Outrora. Revista Editora dos Tribunais, São Paulo: 1954, p. 202.
MENEZES, Ruy. Espiral: história do desenvolvimento cultural de Barretos. INTEC, Barretos: 1985, p. 122-124.
A SEMANA, jornal de Barretos entre os anos de 1940 a 1953. Edições 832, 834, 836, 838, 840, 841, 1394, 1387, 1403, 1424, 1427, 1443, 1447, 1461, 1974, 1961, 1964, 1969, 1977. Arquivo do Museu "Ruy Menezes".
CORREIO DE BARRETOS, jornal de Barretos, edição de 30/1/1944, p.1.

Link da publicação no site do jornal "O Diário":

terça-feira, 30 de abril de 2019

SOBRE AS MÚLTIPLAS CORAS

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 30 DE ABRIL DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS
        
Profª Karla e Rita Elisa Seda na
noite de autógrafos da ABC.
23 de abril de 2019.
        No último dia 23, a Academia Barretense de Cultura (ABC) realizou harmoniosa noite de autógrafos com a renomada escritora Rita Elisa Seda. Casa lotada, música brasileira na voz e violão de Netinho Scavaccini, autógrafos concedidos com simpatia e 60 livros vendidos. Um sucesso literário! Um coro de aplausos às letras!
Coautora da obra “Cora Coralina: raízes de Aninha”, escrita junto ao sociólogo Clóvis Carvalho Britto em 2009, a escritora externou todo o cuidado na pesquisa e produção do livro. Com mais de 400 páginas, o livro conta com citações de documentos inéditos, fotografias, referências bibliográficas e depoimentos sobre a vida da poetisa goiana Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985) - Cora Coralina.
No início do livro, a reflexão é sobre o motivo de se biografar uma personagem que sempre escreveu sobre si própria. E talvez uma das interpretações seja a pluralidade daquela vida de 95 anos. Várias vidas em uma. Suas diversas reinvenções. Uma Cora escritora de crônicas, que de repente se vê mãe e esposa, e, depois viúva, se reinventa como doceira e se fortalece como poetisa. Uma mulher que nasce como “Anica”, cria seu lirismo como “Cora Coralina”, mas ganha o amor de todos como “Dona Cora”.
Naquela década de 1980, quando a imprensa sublinhava reportagens sobre a senhora goiana que poetizava a vida e a sua cidade natal, talvez não tivesse ficado claro a intensidade da trajetória anterior àqueles 90 anos. Cora nasceu na Cidade de Goiás, mas gerou seus filhos em Jaboticabal, enviuvou-se em São Paulo, onde também lutou pela Revolução de 1932. Tornou-se irmã franciscana e comerciante em Penápolis. Depois optou em ser sitiante na recente Andradina. Mas, reviveu em Goiás.
Todas essas passagens, depois de desvendadas no livro, tornam-se caminhos para entender sua poesia. Fica fácil de encontrar em seus versos o memorialismo histórico, o apego com a terra, a sinestesia com a natureza, o olhar aos mais necessitados e o otimismo com a vida. São múltiplas as faces e as mensagens de Cora: forte, telúrica e raiz.

Link da publicação no site do jornal "O Diário":

Artigo original do jornal "O Diário", 30/4/2019, p. 2:

quarta-feira, 17 de abril de 2019

BARRETOS EM ESTANTES


ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 16 DE ABRIL DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS

Em 1981, a Biblioteca Municipal "Affonso d'E Taunay" ganhou
este prédio como sua sede. Atualmente, a sede da Biblioteca se situa
no mesmo prédio da Secretaria de Cultura.

(Fonte: Arquivo do Museu "Ruy Menezes")
         Sobre as estantes da Biblioteca Municipal “Affonso d’Escragnolle Taunay” repousam dezenas de livros sobre Barretos, no geral escritos por barretenses ou por aqueles que aqui tiveram morada. São milhares de páginas que registram, em verso ou prosa, a diversidade de nosso povo, a história centenária, a cultura popular e letrada, a musicalidade, a dramaturgia e a poesia desta terra fundada no já distante século XIX.
Originalmente, a Biblioteca Municipal foi criada por lei em 1941. Porém, só foi inaugurada em 1963 graças a aquisições feitas pela Prefeitura e à doação de milhares de livros da Biblioteca da ACIB - a qual já tinha o célebre escritor como seu patrono e doador de centenas de livros. De lá para cá, a Biblioteca adquiriu importantes obras barretenses, dando forma a uma coleção literária que abarca livros raros. Amarelos, desgastados e preciosos. Exemplares cujas linhas são fontes fecundas para pesquisas.
Livros de João Cornélio Perini da década de 1980
 autografados por ele à Biblioteca Municipal.
Atravessando parte do século XX, as prateleiras da Biblioteca Municipal ecoam os registros de Osório Rocha, Ruy Menezes, José Eduardo O. Menezes, Jerônimo S. Barcellos, Jorge Andrade, José Expedito Marques, Nidoval Reis, José de Ávila, José de Assis Canôas, João Cornélio Perini, Matinas Suzuki, Lauro Pedro Lima, Marlene Ramos Passarelli e outros(as) tantos grandes escritores(as). A salvaguarda de suas obras é a garantia da imortalidade de suas ideias. Eis a importância da Biblioteca.
Mas, o resguardo das obras não basta por si só. Elas precisam ser lidas, pesquisadas e difundidas na comunidade acadêmica, escolar e popular. Não só do ponto de vista histórico, mas a literatura, a dramaturgia, as artes e as ciências devem ser matrizes de disseminação desses autores. É preciso revisitar seus textos e pretextos.
Mesmo com a pós modernidade insistindo no contrário, dizem que não há como separar a influência da vida do autor diante sua obra. Portanto, ao ler um destes antigos autores barretenses, aspectos da nossa cidade saltam nas entrelinhas e muito têm a dizer sobre o passado de Barretos. É certo que vale à pena se aventurar naquelas estantes!

Link do artigo publicado no site do jornal "O Diário":

Artigo original do jornal "O Diário", 16/4/2019, p. 2:


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

VALDOMIRO SILVEIRA, O CONTISTA REGIONAL (PARTE II)

ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 11 DE DEZEMBRO DE 2018, PÁGINA 2.


            O primeiro conto do regionalista Valdomiro Silveira foi publicado num jornal de Casa Branca, aos 14 anos. Somente em 1920, publicou seu primeiro livro “Os Caboclos”; seguido por “Nas Serras e nas Furnas” (1931), “Mixuangos” (1937) e “Leréias: histórias contadas por eles mesmos” (1945, obra póstuma). Conforme seus contemporâneos, parte dos contos era publicada em jornais do interior. O nosso “O Sertanejo” foi um deles, já que não só de política tratava o jornal barretense, literatura era também constante por ali.
            Em 1903, quando fazia somente dois meses que a direção do jornal “O Sertanejo” tinha sido transferida do Cel. Silvestre de Lima para o dr. Antônio Olympio (ambos republicanos, mas com posições e lideranças diferentes), os contos de Valdomiro começaram a ser reproduzidos no jornal. Nos meses de maio e agosto, o jornal “O Sertanejo” publicou os contos “Ao correr das águas”, “Com deus e as almas” e “Truque”.
            Não há como não ler seus contos no jornal, visto a linguagem ser tão fidedigna às expressões da época. Chama a atenção. É envolvente a leitura. Nos três contos, os narradores são de alguma maneira relacionados ao passado, os personagens pertencentes ao mundo rural e caipira, e o cenário relacionado à natureza, rios, ribanceiras, matas, pousos e estradas. O conto “Com deus e as almas”, por exemplo, é tão real ao falar dos tropeiros, que chega a citar pousos em cidades, distritos e fazendas perto de nossa cidade, como “Franca”, “Olhos D’Agua” e “Estiva”. Esta habilidade em reproduzir a fala e o universo do caipira, segundo uma obra da filha de Valdomiro – Júnia Silveira Gonçalves – foi adquirida em anotações que seu pai fazia em festas populares e quermesses, as quais participava enquanto vivia no interior de São Paulo, quando fora promotor público.
O fato de reproduzir a oralidade caipira de forma literária, tornou-a passível de estudo e cientificidade. Criou uma memória caipira original, pertencente a identidade regionalista de São Paulo, e ao mesmo tempo, verteu o olhar para o caipira sem estigma. Eternizou a oralidade caipira para o futuro. E cá estamos, estudando-a. [fim].

Fontes:
O SERTANEJO, periódico hebdomadário de Barretos. Edições entre maio a agosto de 1903. Acervo do Museu "Ruy Menezes".

Link da publicação no jornal "O Diário":
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80041/VALDOMIRO-SILVEIRA-O-CONTISTA-REGIONAL-PARTE-II

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

VALDOMIRO SILVEIRA, O CONTISTA REGIONAL (PARTE I)

ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 05 DE DEZEMBRO DE 2018


Valdomiro Silveira
(foto do site "uol")
            Republicano e partidário, “O Sertanejo” - primeiro jornal de Barretos -, nascia no ano de 1900 como uma folha que noticiava, sobretudo, política; os sonhos e as desilusões da jovem República que se anunciava no Brasil desde 1889. Entre algumas notas sociais sobre eventos, viagens, nascimentos, casamentos, funerais, quermesses e visitantes ilustres, vez ou outra, o jornal publicava alguns folhetins literários.
            Dentre os literatos ali citados, um desperta a atenção por sua particularidade: a linguagem caipira. Sua escrita reproduzia a oralidade do caipira, junto com seus personagens e o universo rural. Chamava-se Valdomiro Silveira. Ao pesquisar o nome de tal contista na atualidade, é notada a grandeza de seu trabalho literário ao legado paulista.
            Nascido em Cachoeira Paulista, em 1873, Valdomiro passou sua infância no interior, mas formou-se em 1895 em Direito na Faculdade do Largo São Francisco na capital, conforme a maioria dos intelectuais letrados da época. Conta a historiadora Célia R. da Silveira, em seu mestrado (1997), que ao cursar a faculdade, o distanciamento do mundo rural permitiu que o contista passasse a enxerga-lo com nostalgia e sentimento. Características ímpares de sua literatura. Aliás, Silveira pertencia a uma geração de autores nacionalistas – literatos, historiadores e antropólogos – que escrevia a fim de elaborar uma identidade cultural ao paulista. Identidade esta, a qual em tempos remotos era associada aos “heróis bandeirantes”, mas que naquele alvorecer do século XX, tendia a outro personagem igualmente rural e desbravador da natureza: o caipira.
            Contudo, de todos os autores, Valdomiro Silveira se diferenciava por colocar o “caipira” como personagem autêntico, com feição de brasilidade. Isso não se evidenciava somente pela descrição da fala original caipira, mas também pela recriação poética do universo rural; que naquele período tornava-se “obscuro” pelos traços iniciais da economia de mercado e urbanização. Era assim que, em seus contos, Valdomiro evidenciava o passado como um tempo melhor que o presente. [continua].

Fontes e bibliografia:
O SERTANEJO, periódico de Barretos. Edições de 3/5/1903, 17/5/1903 e 23/8/1903. Acervo do Museu "Ruy Menezes".
JORNAL O LINCE (site). Artigo: SILVEIRA, Célia Regina. "A epopeia caipira em Valdomiro Silveira". 

Link no site do jornal "O Diário": 
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/79868/VALDOMIRO-SILVEIRA-O-CONTISTA-REGIONAL-PARTE-I