sábado, 28 de abril de 2018

HISTÓRIA LOCAL: MEMÓRIA E CIÊNCIA


ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM MAIO DE 2015, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" 

            São muitas as pessoas que se interessam em estudar e conhecer a história da cidade onde nasceu ou vive com a família. Geralmente, essa “história da cidade” pode ser conhecida por meio de livros, passeios turísticos, roteiros educativos, visitas museológicas e em aulas de História. No entanto, é importante ressaltar a maneira como essa história é escrita, pesquisada e disseminada ao público-alvo; à comunidade.
            O nome oficial e “acadêmico” desta vertente é “História Local”, ou “História Regional” dependendo do enfoque do trabalho. Essa História Local, em poucas palavras, e utilizando as teorias do pensador Michel de Certeau, é uma operação histórica em que se mescla um lugar social, práticas científicas e a escrita. Isto é, para se produzir a História Local, é necessário, além do recorte temporal e espacial, a  metodologia de pesquisa científica através do estudo analítico de fontes históricas, teorias de historiadores e texto com rigor acadêmico. Deste modo,  a História Local, assim tratada, é uma refinada prática da historiografia e da história produzida como ciência.
            Escrever historicamente sobre o “local”, bairros, comunidades, províncias e pequenas regiões, é uma prática existente desde os tempos em que os europeus iniciaram estudos sobre feudos, famílias e conflitos antigos. No Brasil do início do século XX, esse tipo de História era escrito principalmente por intelectuais letrados (advogados e jornalistas), não formados em História. A esses amantes do texto histórico-literário, estudos atuais da ANPUH dão o nome de “amadores” ou “memorialistas”; os quais apesar de não seguirem o rigor científico da História, contribuíram de sobremaneira ao pioneirismo dos estudos sobre o passado e à memória das cidades brasileiras.
            Nos tempos atuais, cada vez mais a História Local é escrita por historiadores que se preocupam não somente com a cientificidade de seus textos, comprovando suas análises e fontes; mas principalmente por estudarem temáticas diversas, grupos anônimos, biografias esquecidas e patrimônios importantes. Assim sendo, a História Local mostra-se como uma produção materializada pela beleza da memória e pelo requinte da ciência.
           
           

O ANTIGAMENTE


ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM MAIO DE 2015, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" 

“Antigamente, havia os que tomavam chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: "Farei presente." Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo"; ao que o Reverendíssimo correspondia: "Para sempre seja louvado”. Texto da obra “Caminhos de João Brandão” publicada por Carlos Drummond de Andrade em 1970.
            As palavras de Drummond são exemplos de modos de vida, de ações, de costumes de “antigamente”. E como tal, nos despertam a curiosidade sobre como as pessoas do tempo de outrora viviam, se comportavam, o que apreciavam, etc. O texto em sua íntegra demonstra outras falas, personagens, jargões e hábitos do que acontecia no passado, e oferta ao leitor a oportunidade de revivê-lo.
            Quando falamos em “antigamente”, é natural que nos transportemos à História. E, conforme o que se vê em livrarias, na internet, jornais, televisão e rádio, o estudo e as conversas sobre o passado, têm ganhado cada vez mais espaço nos hábitos dos brasileiros.
            Segundo o historiador Jaime Pinsky (2013), o gosto pela História tem sido motivado por duas principais razões. A primeira seria o interesse natural que o ser humano carrega desde sempre em conhecer a sua origem, de onde vem suas raízes familiares, étnicas, nacionais e culturais. E a segunda razão se resume na curiosidade em compreender as vivências do homem nos diferentes tempos e lugares do passado, ou seja, como que as comunidades se organizaram política e economicamente, quais eram suas religiões, hábitos culturais, ritos e tecnologias.
            Percebe-se, portanto, que o gosto pela História, pelo conhecimento do passado, e pela curiosidade dos costumes de outrora, nada mais são do que o interesse diante à evolução do homem; de nós mesmos, de nossa família. Sendo assim, a História é o elo entre nós e aqueles nos originaram; aqueles de antigamente, aqueles de Drummond.

ESBOÇOS, ESTILOS E ERUDIÇÃO: 130 ANOS DE OSÓRIO ROCHA


ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM 21 DE MARÇO DE 2015, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" 

                Na semana finda, a Academia Barretense de Cultura teve a felicidade de criar uma programação especial em comemoração aos 130 anos do nascimento do renomado escritor e jornalista Osório Faleiros da Rocha. Como parte integrante das homenagens, proferi no dia 19 de março uma palestra, cujo nome também intitula este artigo, a respeito da vida e obra deste homem que, apesar de não ser barretense, deixou um rico e enorme legado à história da nossa centenária cidade. A palestra aconteceu no Centro Cultural – “Teatro Cine Barretos”, que tem o nosso homenageado como patrono, e contou com a ilustre presença de seus familiares, em principal as netas que vieram de diversas cidades prestigiar a calorosa comemoração da ABC.
                Osório Faleiros da Rocha ainda é muito conhecido no ramo cultural de Barretos por ser o autor da principal obra da história da cidade, o “Barretos de Outrora”. Os barretenses mais velhos possuem a recordação de Osório como professor e jornalista; e os mais jovens o tem como fonte de inspiração quando existe a necessidade de registrar em linhas alguns aspectos da história de Barretos – recorremos então a seu livro. Apesar deste grande legado, a intenção foi mostrar que a produção intelectual de Osório Rocha foi além disso...
                Proprietário de uma erudição impecável ao escrever, e de estilo literário próprio, Osório Rocha assinou por mais de sessenta anos suas crônicas “Esboços” em diversos jornais de Barretos. Desde 19 de julho de 1908, em “O Barretense”, como “Caá-Ubi”, suas crônicas expressavam narrações do cotidiano de Barretos e até dissertações a respeito de políticas, fatos mundiais e ideologias.  Um dos principais assuntos de suas crônicas era a “história de Barretos”, assim, a partir dos anos 1930, Osório começou a publicar notas nos jornais em formato de rodapé intituladas “Barretos de Outrora”. Tais notas, em 1954, foram aprimoradas na publicação do livro que também fez parte das comemorações do primeiro centenário da cidade. Sua paixão pelos livros e pelos estudos do passado foram incentivados na ocasião em que Osório trabalhava no cartório do Major Elyseu F. de Menezes, e ali perambulava nas linhas dos mais antigos processos e documentos cartoriais da cidade; integrando a si o gosto pela escrita da história daquela pequena vila em formação que, mais tarde, ele viu crescer.
                Por outro lado, não fora somente a escrita uma linguagem cultural que Osório dominava bem. Era um exímio orador e conferencista, foi também um grande incentivador da arte, pois foi responsável pela vinda ou apresentação de diversos artistas em Barretos, como Américo Jacomino (O Canhoto), Valério Vieira, Dinorah de Carvalho, Helena de Magalhães, Violeta Sandra, Antonieta Rudge e Salomé Jorge. Além de sempre estar também presente nas visitas a Barretos do músico Heitor Villa-Lobos e dos escritores Coelho Neto e Menotti Del Picchia.
                Nascido em 1885 em Patrocínio do Sapucaí, vindo a Barretos em 1907 e aqui permanecido até os anos 1970, a vida de Osório Faleiros da Rocha se confunde com a história da própria cidade de Barretos; uma vez que ele viveu a origem da urbes e esteve presente em grandes momentos de desenvolvimento da cidade. Participou de disputas políticas na época do coronelismo, da Revolução de 1932, do movimento integralista, foi integrante de várias instituições da cidade, como a ACIB e o Rotary, foi professor e responsável por várias bibliotecas, como a da ACIB que mais tarde foi integrada a Biblioteca Municipal. Sua produção intelectual a cada década crescia mais, visto que ele foi o autor do Hino do Tiro de Guerra de Barretos, e do Hino de Barretos originado em 1950.
Logo, vê-se que sua vida pautou-se de sobremaneira naquilo que onde ele é sempre homenageado: a cultura. Como ele mesmo disse: “Só uma espécie de paixão se manteve sempre acesa na frágua de minh’alma frívola: a paixão pelos livros, pelas cousas da arte, pela beleza universal” (Reminiscências, volume I, p. 136).    
               

quarta-feira, 25 de abril de 2018

INDEPENDÊNCIA DO BRASIL: UM PROCESSO




ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM SETEMBRO DE 2013, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS"

            O feriado da Independência do Brasil, 7 de setembro, se aproxima. Completa nesta data 191 anos de seu feito, e ainda desperta nos brasileiros um certo civismo e patriotismo. Figuras como Dom Pedro I, José do Patrocínio, expressões como “Independência ou Morte” e “margens do Ipiranga” são ícones que certamente serão lembrados durante esta semana para se refletir um pouco sobre a nossa Independência. Uma data como essa não necessita ser usada como um “dia de glória”, mas pode ser lembrada para reflexões, críticas e discussões a respeito da independência.
            Acontece que, um dos grandes problemas a se discutir a “independência do Brasil” é sempre o mesmo: o fato de intuirmos que a mesma aconteceu a partir do dia 7 de setembro de 1822 e foi fruto da vontade do então príncipe regente lusitano, Pedro de Alcântara. Aqui, portanto, cabe uma reflexão.
            A independência brasileira, de fato proclamada a partir de 1822, quando o Brasil passa a ser desvinculado do Pacto Colonial que o prendia à metrópole portuguesa, foi fruto de um processo, e não repentina. Diz a maioria dos historiadores brasileiros que a independência já podia ser sentida em movimentos como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana. Além destes o acontecimento que ofereceu mais ênfase a este processo foi a vinda da família real e a corte portuguesa ao Brasil em 1808.
            A partir do momento que Dom João VI e toda a corte lusitana chegam aos portos brasileiros, são tomadas uma série de atitudes que afrouxam os laços coloniais. Três exemplos são primordiais neste sentido: a abertura dos portos ao comércio com a Inglaterra (perdeu-se a exclusividade do comércio português), a liberação das manufaturas no Brasil e a extinção do título “colônia” do Brasil – que passa a ser “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”. Tendências que levariam à proclamação da independência.
            Independência proclamada e não conquistada. A figura de Pedro I entra em evidência por ter sido ele o membro da família real que guiou a independência de modo que pelo menos o domínio monárquico permanecesse e o Brasil não se fragmentasse em várias repúblicas como aconteceu com a América Espanhola. Pensemos.


DESFILE CÍVICO E FOLCLÓRICO DE BARRETOS




ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM AGOSTO DE 2013, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS"

            Barretos comemorou no início da semana seus 159 anos, e ganhou um presente encantador na véspera de seu aniversário: o Desfile Cívico e Folclórico em homenagem a sua tradição, cultura e história. Era visível a falta que o desfile fazia aos barretenses, e a realidade disso foi vista com a participação do público que lotou a área central onde o desfile passou. Com alguns anos de ausência, o desfile voltou em belo estilo, com o prestígio do público e causando emoção por onde passou.
            A Prefeitura Municipal de Barretos, junto à Secretaria Municipal de Cultura e demais repartições, trabalharam muito para retomar este marco que sempre foi tradicional à cidade de Barretos. O rótulo “tradição” advém do fato de que o desfile de Barretos se iniciou há 70 anos atrás, e durante todo este tempo, com algumas interrupções, foi realizado na cidade sempre com muito brilhantismo e encantamento. Deste modo, era um desafio à administração municipal pesquisar, retomar, divulgar e reviver este passado; entregando-o à população como um verdadeiro presente.
            O desfile foi roteirizado em quatro principais blocos: abertura, história, atualidades e folclore. O primeiro destacou o caráter cívico que é peculiar de todo desfile, com o Tiro de Guerra, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar; além das bandeiras empunhadas pelo Prefeito Municipal e representantes da indústria e pecuária. O bloco de História foi contado pelas crianças da rede municipal de ensino, que destacaram os fundadores da cidade, os patrimônios e as contribuições do imigrantes. O bloco de atualidades teve a intenção de mostrar o presente de desenvolvimento que Barretos vive com sua Cultura, Turismo, Educação, Esporte, Indústria e Comércio, etc. E, para fechar, o bloco do folclore recordou a identidade barretense com a Festa do Peão, a música caipira e a catira. Além de outros grupos culturais como as congadas, companhias de reis e a diversidade dos grupos de Olímpia. Tudo isso, regado por muita música de quatro bandas marciais, e demais grupos musicais.
            E foi assim que o desfile saiu pontual, colorido, animado e encantador. Foi lindo ver a Rua 18 lotada, saudando a iniciativa do Prefeito. O coração bateu forte e os olhos dos barretenses se mostravam demasiadamente emocionados. Parabéns Barretos!

A BANDEIRA OFICIAL DE BARRETOS



ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM AGOSTO DE 2013, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS"

            Os barretenses tiveram uma feliz surpresa neste mês de agosto: ver a bandeira da cidade hasteada na entrada da avenida 43 e também as bandeiras da Praça 9 de julho. Para os turistas que chegam a Barretos, a bela vista da bandeira pode parecer algo normal, mas os barretenses se surpreenderam com tal atitude da Prefeitura de Barretos que fez questão de estampar o orgulho de ser barretense por meio da nossa bandeira, que os ventos de agosto conseguiram tornar ainda mais bonita.
            Todos países, estados e munícipios possuem a sua bandeira, e cada uma delas são originadas de histórias muito interessantes, bem particulares a cada local. E em Barretos isto não poderia ser diferente, afinal a nossa bandeira também tem história.
            Segundo a obra “Espiral” de Ruy Menezes, tudo começou em 1974, quando o prefeito de Barretos, Ary Ribeiro de Mendonça, oficiou a Câmara Municipal de Barretos na intenção de abrir um concurso público para a escolha de uma bandeira oficial para o munícipio. Isso porque, a bandeira até então usada era representada por um retângulo na cor creme, tendo costurado no centro o brasão da cidade.
            A partir de então, foi nomeada uma comissão organizadora do concurso público, e neste foram expostos setenta trabalhos. O voto popular elegeu uma bandeira que, de acordo com Ruy Menezes, não poderia ser classificada por não estar de acordo com o edital. Foi então que, a comissão escolheu o trabalho do estudante do quinto ano de Engenharia, Luiz Antônio Furlan. Logo, a 20 de agosto de 1974, pela lei nº 1393, era oficializada a bandeira de Barretos.
            Diante este breve histórico, vê-se a importância da bandeira oficial de Barretos, uma vez que a mesma simboliza as cores do brasão, possui módulos iguais da bandeira nacional, e demarca a posição geográfica da cidade no estado de São Paulo por meio de uma estrela branca. A bandeira pode despertar no barretense aquele sentimento de pertença, de identidade, de raiz e de orgulho. Afinal, “não há divisa mais bela, mais nobre mais varonil: sejamos a sentinela, avançada do Brasil”.

Fonte: Obras: “Espiral” (1985); “Descobrindo Barretos” (2012).

REVOLUÇÃO FRANCESA: INFLUÊNCIAS E CONSEQUÊNCIAS



ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª ESP. KARLA O. ARMANI, EM AGOSTO DE 2013, NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS"

            Muitas vezes a história da França se confunde com a própria história do mundo. Isto porque alguns acontecimentos que lá se destacaram, de alguma forma repercutiram em outros lugares do planeta, influenciando movimentos políticos, econômicos e sociais. Desde as primeiras aulas de História, sempre ouvimos falar da famosa “Revolução Francesa”, “Napoleão Bonaparte”, “Iluminismo”, dentre outras coisas; mas nem sempre temos ciência da importância destes feitos e personagens.
            O século XVIII foi muito peculiar à história da França, uma das épocas mais importantes devido às mudanças que repercutiram no fim da época Moderna e início da Contemporaneidade. Foi nesta época que a filosofia iluminista saltou em direção a novos olhares dentro da política e economia, criticando abertamente o sistema absolutista e a economia mercantilista colonial. Esses fatores foram o que contribuíram, em suma, para o desenrolar da Revolução burguesa que durou de 1789 a 1799.
            A Revolução Francesa foi o momento em que se desencadeou uma série de problemas internos que a França vivia naquele momento, em relação a crises econômicas, na agricultura e na própria sociedade. Desde a queda da Bastilha, em 1789, até o final da fase do Diretório, os franceses, sob o domínio da burguesia, vivenciaram momentos de conflitos que culminaram na morte da família real. Este movimento refletiu em outros países, principalmente naqueles que estavam sob o jugo colonial, como o Brasil; haja vista os movimentos da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana que aconteceram no mesmo período.
            É bem verdade que o antigo Sistema Colonial já estava em decadência desde o século XVII, entretanto, a Revolução Francesa serviu como incentivo ainda maior para o fim dos governos monárquicos e da política mercantil; uma vez que foi através dela que os burgueses conseguiram implantar uma República (que durou pouco tempo). Foi depois da Revolução Francesa (e também da Independência Americana) que os países latinos começaram a lutar por sua independência e pela implantação do sistema republicano e da economia liberal. Pensemos, pois, em sua importância.