domingo, 13 de setembro de 2020

O IMPORTUNO


 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 19 DE AGOSTO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

            Neste 19 de agosto comemora-se o Dia do Historiador no Brasil, desde 2009. Mesmo ano em que foi iniciada a tramitação do projeto de lei que regulamenta a profissão de “historiador” no Brasil. Lei que perpassou 11 anos até ser aprovada no Senado, com algumas alterações na redação, mas foi vetada pela atual presidência da República. Utilizando da democracia e das instituições republicanas, a sociedade e as associações de História, representadas pela ANPUH, se mobilizaram e conseguiram a derrubada do veto pelo Congresso Nacional. Câmara e Senado fizeram valer a democracia aprovando o projeto, que a partir de então segue à sanção presidencial; a qual, agora, espera-se maior seriedade à voz da classe de trabalhadores da História.

            A lei basicamente regulamenta a profissão de historiador àqueles formados em História, assim como aos titulares de Mestrado e Doutorado na área, e para os profissionais de setores correspondentes que trabalhem como historiadores há 5 anos. Essa última condição amplia o perfil do profissional, o que não direciona corporativismos, nem “reserva de mercado”, não restringindo o ofício aos que já trabalham na área, mesmo não formados. A intenção da regulamentação é criar um perfil ao historiador de modo que ele tenha suas funções de trabalho conhecidas e ampliadas (em pesquisas ou no campo da cultura), atraindo novos profissionais na escolha desta profissão, assim como permitir as aprovações em concursos.

            A utilidade do historiador é incontestável, pela condução de pesquisas sobre a história do país e suas relações com o mundo, e pelas reflexões que promove sobre política, memória, identidade e cultura. Como disse, Carlos Drummond de Andrade em seu poema “O historiador”: “É importuno, sabe-se importuno e insiste, rancoroso, fiel”. Trata-se de um importuno que reage contra o esquecimento, e talvez seja esse o motivo que, por vezes, é temido.  Que este 19 de agosto marque a luta deste “importuno” tão oportuno aos dias de hoje. Um paradoxo fácil de entender.

HISTÓRIA LOCAL NÃO É SAUDOSISMO

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 11 DE AGOSTO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

            Escrever e falar sobre o passado da cidade pode sim mexer com sentimentos, principalmente quando o leitor possui memórias sobre paisagens, pessoas ou acontecimentos. Mas, é necessário deixar claro que quando um historiador estuda a “história da cidade”, a intenção não é diretamente despertar emoções, menos ainda tornar aquele passado algo glorificado. Romantizar o passado não é o caminho.

            Ao estudar os tempos idos de uma cidade, o historiador evidencia temas, personagens e grupos sociais que promovam alguma crítica e reflexão. O resultado alcançado pode ser um diálogo com a história do Brasil ou mundial, a propaganda de um patrimônio material ou imaterial, o despertar para a cidadania, a descoberta da origem de um problema ainda existente, as particularidades culturais, as influências externas que trouxeram novos ares, os fatos inusitados e as mudanças das épocas.

            A questão é que muitas pessoas ainda se apegam à história da cidade contada pelo memorialismo – por memórias narradas sem o rigor científico. Isso acaba por apresentar, na maioria das vezes, uma história adjetivada, com personagens heroicos e um passado reconfortante. O resultado disso? Saudosismo. Como se à história fosse dada a missão de reviver o passado, e não o questionar. Como se tudo do passado (o civismo, as ruas, os uniformes, os comícios, o bucolismo, o trem) fosse melhor.

            Se a história da cidade fosse produzida para despertar esse “saudosismo”, ela estaria a serviço somente dos mais idosos – personagens que já viveram épocas passadas. Então, jovens não poderiam conhecê-la já que não viveram tais épocas? Não é assim, a História não pode ser apropriada pelo passado. A história da cidade deve ser uma ponte que nos leva ao passado, mas que é edificada pelas indagações do presente. Quem constrói o que é histórico são os agentes do presente. O passado não é para ser revivido, não é necessariamente mais leve e nem mais instruído; na História ele é objeto de estudo. O flerte ao passado é literário. O estudo do passado é História.

FOTOGRAFIAS E SEUS USOS - PARTE II

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 4 DE AGOSTO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

As fotografias de acervo familiar são de suma importância para a revitalização e construção do trabalho histórico. Várias famílias guardam em gavetas, umas com mais afeto e outras menos, fotografias amareladas de seus antepassados; muitas vezes sem nem imaginar o valor que aquelas imagens possuem à história da cidade, da região e do país. Nos tempos atuais, com os processos rápidos de digitalização, inclusive por celulares, facilmente pode se salvar uma relíquia histórica digitalizando-a, promovendo acesso e a possibilidade de estudo de certos períodos do passado da cidade. Para isso, basta um pouco de consciência de cidadania, ao permitir que arquivos públicos e históricos dos municípios tenham acesso a estes ricos materiais. Na História, fotografias de família não se resumem a personificar mitos e heróis, ao contrário, permitem construir o coletivo de uma comunidade a partir de experiências individuais.

            Assim aconteceu, por exemplo, com algumas fotografias que consegui captar para a produção da minha obra “De onde cantam as cigarras”. Através de contato de familiares, consegui encontrar fotografias da única mulher fundadora do Grêmio Literário e Recreativo, Maria Isoleta Carneiro Vieira. Na verdade, o Grêmio possuía sua imagem, mas somente sua bisneta pôde fazer o reconhecimento da personagem (de São Paulo, em conversa por celular). Com a mesma pessoa, consegui imagem de duas icônicas personalidades femininas da cidade, a poetisa Carmelitana d’Arantes (colaboradora de “O Sertanejo” e tia de Isoleta) e de Maria Olympia Vieira Marcondes, filha do dr. Antônio Olympio – personagem a qual recebeu como homenagem o nome da vizinha cidade de Olímpia. Além destas, estampa o último capítulo fotografias encantadoras das pianistas barretenses Haydée Oliveira Menezes e Adelaide Galatti nos anos 1930 e 1940, também originadas de suas tão queridas sobrinhas.    

Desta forma, fica o exemplo de como as fotografias da sua gaveta podem descongelar rostos e vozes, além de promover algo maior: a História. [fim].

FOTOGRAFIAS E SEUS USOS – PARTE I

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 28 DE JULHO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

            Fotografias são apaixonantes, é claro. Eternizam momentos, cenários e rostos, como se fossem capazes de viajar por uma máquina do tempo trazendo à tona pessoas e paisagens. Pelo olhar do fotógrafo, repleto de intencionalidades, uma fotografia antiga é parceira fiel numa pesquisa de História. Isso porque ela não só evidencia informações visíveis sobre como era um local ou as características das pessoas, mas também torna-se fonte para se entender a mentalidade de certa época a partir do objetivo de seu autor, do local onde foi publicada, por quem foi comprada, onde foi exposta e assim por diante.

            Na História, uma fotografia não é somente uma fotografia. É uma fonte. E fecunda. Naturaliza e desnaturaliza ideias.

            Isso é bem visível em meu livro recém lançado, “De onde cantam as cigarras”, pois, durante as pesquisas, encontrei fotografias de personalidades e paisagens de Barretos no início do século XX em jornais e revistas de expressiva circulação nas capitais do Brasil e do estado de São Paulo. Como exemplo, a fotografia da quermesse realizada em 1911 em benefício da criação da biblioteca do Grêmio Literário e Recreativo, que acontecia no Jardim Público da cidade, publicada na revista carioca “O Malho” do Rio de Janeiro. Na imagem, além de aparecer personagens conhecidos da imprensa local (inclusive, Almeida Pinto) e professoras, a legenda enaltecia os feitos culturais da tão distante Barretos. Algo semelhante do ocorrido em 1920 com a publicação de fotografias na revista paulista “A Cigarra”, as quais estamparam a visita do escritor Coelho Netto ao Grêmio e às residências de seus amigos em Barretos; cujo teor destacava a cidade como destino de interlocuções literárias. As imagens e suas redações, enviadas pelos próprios barretenses aos seus mediadores da grande imprensa, serviam como suporte de evidência de modernidade à “cidade do boi”, que precisava mostrar beleza e erudição, em contrapartida de sua fama de violenta, isolada e boca do sertão. [continua].

E as cigarras ainda cantam...

  ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 21 DE JULHO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

            Eis o nome do Posfácio do meu livro, que será lançado virtualmente daqui dois dias - dia 23/7. Posfácio escrito competentemente pelo professor de Literatura André Luís Lourenço Ribeiro, que colaborou com seu vasto conhecimento humanístico. Isso porque o livro retrata partes da literatura nacional, tanto pela produção intelectual dos gremistas (a elite letrada), quanto pelas performances literárias dos visitantes do Grêmio. O Posfácio aprofunda a reflexão e destaca certos personagens. Revive-os.

            Já o Prefácio, entendendo-se como um convite para o leitor virar as próximas páginas bem orientado, é assinado pelo jornalista e acadêmico Luiz Antônio Monteiro de Barros. Jornalista que conhece a história da cidade e sabe escrever de forma simplista temas profundos como os da História, Literatura e Sociologia, abordados na obra. Com suas frases curtas e claras, Luiz Antônio indica os cenários e os caminhos do livro. É alguém que certamente se entendeu bem com as cigarras. Mergulhou na metáfora.

            A contracapa do livro apresenta o texto da historiadora barretense Priscila Ventura Trucullo, professora estudiosa da história de Barretos. Sua assinatura sela a historicidade da obra, descrevendo os métodos e as fontes utilizadas num texto conciso e bem escrito. Um primor cada uma de suas palavras. Assim como o texto de apresentação do dr. Marco Antonio Corrêa, diretor cultural do Grêmio, que, de uma maneira tranquila e convidativa, conta a trajetória do projeto e a integração do livro às comemorações dos 110 anos do clube. Palavras de verdade. Ainda mais, o livro conta com o trabalho excepcional do design gráfico Daniel Ramos Pacheco, que diagramou o estilo, as fontes, as imagens e a forma do livro, pensando na minha personalidade como escritora e, sobretudo, no conforto do leitor. Ele deu vida às cigarras.

            A todos estes colaboradores do livro eu serei eternamente grata, cada qual com seu perfil, fizeram das minhas linhas uma realidade visível, reflexiva e bonita – como o canto daquelas cigarras.

De onde cantam as cigarras

 ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 14 DE JULHO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 

           


Eis o título do meu livro. Confesso, eu queria um título instigante; e acredito que consegui. Afinal, muitas pessoas me perguntam a relação do título com o assunto principal do livro: o Grêmio Literário e Recreativo de Barretos. E é justamente por se tratar do Grêmio, que eu precisava escolher algo relacionado à literatura e à cultura; uma metáfora. Enfim, só lendo o livro para compreender. (Sim, é um convite).

            Procurada pelo Diretor Cultural do Grêmio, o dr. Marco Antonio Corrêa, com a intenção de se comemorar os 110 anos do clube, ousei em propor a escrita deste livro, que tinha menos de um ano para ser produzido e publicado. Foram 5 meses de intensa pesquisa, desvendando assinaturas ilegíveis, lendo milhares de atas à caneta de pena e descobrindo fotografias inéditas. Sobrou pouco tempo para escrever, mas me debrucei sobre o projeto; mergulhei. Era para ser lançado em abril, porém, veio a pandemia. E com ela, o desafio do Grêmio em ter que sobreviver mais uma vez a um vírus avassalador como aquele da Gripe Espanhola, em 1918. (Eu, meses atrás, pesquisando sobre a Gripe Espanhola no Grêmio, jamais imaginaria que viveria algo tão parecido).

            No entanto, quando tudo parecia ser frio e distante, veio a diretoria do clube abraçando mais uma vez o projeto, e juntos decidimos promover um lançamento virtual, iniciar as primeiras vendas e, quando possível, fazer o evento físico (quando muitos já terão lido a obra!). O Presidente, dr. José Eberle Martins Filho, acolheu o livro com entusiasmo e disponibilizou as redes sociais do clube para a divulgação, além de um ponto de venda física na sede do clube. É imensa a minha gratidão.

            Deste modo, o lançamento online será dia 23 de julho, às 19h, no perfil do Grêmio, no Instagram; a partir de então as vendas se iniciam. Neste dia, apresentarei informações sobre esta obra que, interessada no potencial histórico do Grêmio, apresenta a cultura e o pensamento intelectual de Barretos através do clube entre 1910 a 1945. Desejo que a leitura do livro seja tão inquietante quanto são as cigarras!

terça-feira, 7 de julho de 2020

A BANDEIRA PAULISTA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 7 DE JULHO DE 2020 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS 


            No alto, a Bandeira idolatrada da Pátria, tremulando sobre o edifício do Posto Policial. O vento parece querer arrancar o símbolo sacrossanto e leva-lo, explica-lo aos Iscariotes da Ditadura, que o desconhecem, que o não amam nem compreendem.
(Osório Rocha, A Semana, 3/8/1932).
         
Sede do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos
como quartel do Batalhão "Julio Marcondes Salgado"
durante a guerra paulista de 1932.
Nota-se a bandeira paulista hasteada no canto
direito da sacada.

(Fonte da foto: Arquivo do GLRB).

   A narrativa de Osório Rocha ocorria-se em pleno acampamento no povoado de Laranjeiras, próximo ao Rio Grande, durante a guerra paulista de 1932. Registrando o levante, o jornalista Osório Rocha escrevia as crônicas “O Momento” publicadas rotineiramente no jornal “A Semana”. Nelas, vemos detalhes relevantes, como o trecho que encima este artigo, a alusão à bandeira nacional como um símbolo quase “sacro” para os soldados, que viam na figura do presidente Vargas um ditador.
Além da bandeira nacional, a flâmula paulista também era ovacionada nos registros e retratada em fotografias junto aos soldados. O prédio onde funcionava o Grêmio Literário e Recreativo, por exemplo, foi transformado na sede do “Estado Maior”, de onde partiam os comandos às tropas e pelotões; e em sua fachada tremulava a bandeira paulista como símbolo da “revolução”. Bandeiras são simbólicas, e por isso usadas em momentos em que impera a necessidade de identidade e união entre os povos. A bandeira paulista foi criada em 1888, logo após a Abolição da Escravatura, com o distintivo de se representar as raças branca, negra e vermelha, as quatro estrelas do Cruzeiro do Sul e o perfil geográfico do estado. Durante a guerra paulista, seu uso foi ainda mais estimulado. Mas, depois disso, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, houve a suspensão das bandeiras governamentais, e seu uso só foi oficializado em 1946.
            Ainda hoje, na cidade, podemos ver bandeiras de São Paulo ao vento; mas somente no Museu “Ruy Menezes” temos a possibilidade de ver uma daquelas usadas em 1932, momento em que elas eram hasteadas em sinal pertencimento e identidade.

Referência bibliográfica:
Crônica "O Momento" de Osório Rocha para o jornal "A Semana", de Barretos, de 9/8/1932, extraída de:
ROCHA, Osório Faleiros da. (in memoriam). Esboços e outras crônicas: 60 anos de jornalismo - volume II. (s/ed), p. 24.