quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

GIULIETTA DIONESI, A JOVEM VIOLINISTA (PARTE II)

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 16 DE JANEIRO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS

A menina Giulietta Dionesi em foto pousada
no ano de 1888 em Milão, Itália.
(Fonte: site ebay)
Ah! Giulietta! Os sons do teu violino
Choram, suspiram, rugem como o leão
Lembram sonoro rio cristalino
E tem soluços como um coração.
(Cruz e Souza, em “O Livro Derradeiro”)
        
      Até o poeta Cruz e Souza não se calou diante o talento daquela jovem italianinha que se lançara no Brasil como uma brilhante violinista. A imprensa carioca, e depois a paulista e a mineira, acompanhava os sucessivos concertos de Giulietta Dionesi junto a seu irmão Romeo por diversas cidades.
Depois do concerto de julho de 1889 à família real brasileira, no qual Dom Pedro II sofreu atentado na saída, no próximo mês, Giulietta já seguia rumo a São Paulo e Minas Gerais, onde fez séries de concertos em São Paulo, Santos, Bagé, Pelotas, Juíz de Fora e Leopoldina. Os anúncios de jornal apresentavam uma garota, no início da adolescência, com um currículo de conservatórios, diplomas e títulos em instituições de Portugal, Espanha, Itália e, claro, “concertista do Palácio do ex-imperador do Brasil D. Pedro II”.
Anúncio de concerto de Giulietta em São Paulo.
(Fonte: "Correio Paulistano", 6/11/1890, p1,
ed. 10.251 - Arquivo Biblioteca Nacional)
            A partir de 1890, passa a ser empresariada e acompanhada pelo maestro e pianista Emílio Grossoni, com quem se casa em 1893 na cidade de Sorocaba, aos 15 anos. Em 1892, junta-se a ela o barítono Luciano Vitorazzo, que passa a acompanha-la nos concertos (inclusive em Barretos). O principal foi em 1897 na cidade de Belo Horizonte. Já na virada do século XX, Giulietta, seu marido e Vitorazzo fizeram tournet musical pelo interior de São Paulo, seguindo em 1902 para Franca e Uberaba (MG), em 1903 para Araras, Piracicaba, Bragança, Jundiaí e Amparo, em 1904 para Ribeirão Bonito, em 1905 para Jaboticabal, Matão, Monte Alto, Ribeirãozinho e Barretos. E é em nossa cidade que ela permanece mais tempo que o esperado, pois adoecera, vindo a falecer seis anos depois em MG. Muitas viagens, concertos, aplausos, porém, uma triste vida familiar. [continua].

Fontes do Arquivo da Biblioteca Nacional (RJ): 
- "Diário do Commercio" edições diversas do ano 1889, 1892 e 1897.
- "Minas Gerais: Orgam Official dos poderes do estado" edições de 1893 e 1897.
- "Correio Paulistano" edições diversas de 1890, 1902, 1903, 1904, 1905, 1906, 1909 e 1911.

Link da publicação no site do jornal "O Diário":
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80983/GIULIETTA-DIONESI-A-JOVEM-VIOLINISTA-PARTE-II

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

GIULIETTA DIONESI, A JOVEM VIOLINISTA (PARTE I)

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 8 DE JANEIRO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI MEDEIROS

Giulietta Dioenesi em desenho na
Revista "Pantheon"  do Rio de Janeiro,
aos 11 anos de idade.
“Em todos os concertos foi a eximia violinista alvo de admiração e aplausos ruidosos pelo modo fidalgo com que, empanhando o arco, arrancava de seu magico violino, sons maviosos e dulcíssimos. E assim foi: - Guilietta Dionesi com seu adorável violino, ri, soluça, canta e chora...”. (O Sertanejo, 29 de abril de 1905, p. 4).

            Uma pequena nota no jornal mais antigo da cidade despertou-me a curiosidade em conhecer mais sobre essa violinista, Giulietta Dionesi. Tão logo veio a descoberta de uma carreira incrível, mas, uma vida nem sempre feliz. Uma jovem que viveu somente 33 anos, sendo 23 anos dedicados à música profissionalmente. Sua passagem por nossa cidade, Barretos, fez parte desta carreira tão fulgaz, porém vigorosa.
            Italiana, nascida em Livorno por volta de 1877, desde criança iniciou seus estudos na música, influenciada por seu irmão mais velho, o músico Romeo Dionesi. Desde os 10 anos de idade, se apresentava oficialmente em concertos musicais na Itália, Espanha, Portugal e Estados Unidos. (Sim, 10 anos). Era, pois, considerada uma “criança prodígio”, um fenômeno pela pouca idade e grandioso talento. Interpretava Paganini e arrancava aplausos de todo o público, como diz esta nota assinada por um expectador em Coimbra: “Julgamos quase impossível dar uma pequena ideia do gênio phenomenal de Giulieta. Desde que ella fazia vibrar a primeira nota no seu magnifico Stainer, o auditório ficava suspenso, como que arrebatado” (Jornal “Campeão das Províncias”, 30/3/1889, p.2).
            Recebeu calorosos aplausos, inclusive, do Imperador Dom Pedro II, quando se apresentou no Teatro Sant’Anna no Rio de Janeiro, em julho de 1889; pouco tempo depois de chegar ao Brasil junto com seu irmão (há indícios que vieram fugidos do pai). Ademais, foi nesta apresentação que Dom Pedro II sofreu atentado de um republicano radical ao sair do concerto de Giulietta – quatro meses antes da proclamação da República. Era uma menina de 11 anos tocando ao Imperador do Brasil. Uma italianinha, seu violino e o rei. [continua].

Bibliografia:
STARLING, Heloísa M.; SCHWARCZ, Lilia M. Brasil: uma biografia. Companhia das Letras: Rio de Janeiro, 2015.
PRIORE, Mary del. O príncipe maldito: traição e loucura na família imperial. Companhia das Letras: Rio de Janeiro, 2006.

Periódicos
Jornal "Campeão das Províncias", ed. de 30/3/1889. 
Jornal "Diario do Commercio", Rio de Janeiro, ed. de 14/7/1889 (Acervo da Biblioteca Nacional).
Jornal "O Sertanejo", Barretos, edições diversas de 1905 (Acervo do Museu "Ruy Menezes").

Link da publicação no site do jornal "O Diário":
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80715/GIULIETTA-DIONESI-A-JOVEM-VIOLINISTA-PARTE-I

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

ABC, TUDO PARA BRILHAR EM 2019!


ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 1º DE JANEIRO DE 2019 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI

Confraternização da ABC em 28/12/2018
no Auditório "Acadêmica Conceição A. R. Borges"

                No antepenúltimo dia do ano que seu findou, a Academia Barretense de Cultura – ABC – reuniu seus membros para congratular seus projetos, integrá-los em boas prosas, deleitar-se ao som de músicas agradáveis e semear uma prazerosa troca de livros. Foi uma noite feliz, com direito a telefonemas em “viva-voz” de acadêmicos que moram distante. Foi um momento de homenagens e lágrimas. Foi uma oportunidade de abraços entre os imortais da cultura.
            O presidente, José Antônio Merenda, brindou-nos com um resumo de tudo que fora realizado em 2018 e anunciou os projetos para 2019 (que não são poucos!). Sua briosa mania de “arregaçar as mangas” e trabalhar duro pela ABC foi carinhosamente reconhecida pela vice, Adalgisa Borsato. Sem contar as congratulações de outros acadêmicos, sempre fiéis ao voluntariado da cultura e em manter a ABC viva. Ativa!
            Mas, também pudera... Como não ser radiante o sucesso de uma Academia que carrega o nome de quarenta patronos tão importantes à história e a identidade cultural da cidade? São quarenta nomes respeitáveis, que, se investigados, dão luz a importantes obras artísticas e científicas. São patronos que não nasceram na cidade, mas que fizeram dela o palco de suas produções. Muitos escreveram, pintaram, compuseram e criaram os mais diversos trabalhos literários, artísticos, históricos, musicais, teatrais e científicos neste “chão-preto”, honrando o nome da cidade. Barretos é sim terra de cultura. Da ABC!
            No passado, os patronos trouxeram e desenvolveram a cultura numa Barretos que ainda iniciava seus passos urbanos. No presente, os titulares das quarenta cadeiras mantêm esta cultura, mas em cliques de atualizações, com dinamismo, provando que as linguagens artísticas se flexibilizam e se reinventam. É maravilhoso esse diálogo de cadeiras; essa dialética do tempo; essa imortalidade de nomes e de obras.
            Que em 2019, a ABC cresça e floresça em projetos. Construa ideias e descontrua paradigmas. Costure sonhos e colecione realidades.

Link da reportagem no site do jornal "O Diário":
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80557/ABC-TUDO-PARA-BRILHAR-EM-2019

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

MUSEUS E CULTURA: O QUE ESPERAR?


ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 25 DE DEZEMBRO DE 2018 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI 
    

            2018, ano tenso, polêmico e desafiador para o Brasil, principalmente devido as eleições. A qualquer custo, polêmicas e debates foram levantados nas redes sociais, fosse entre especialistas ou simples opinantes. Tudo era motivo de discussão: partido político, poder judiciário, Congresso Nacional, corrupção, greve dos caminhoneiros, merenda escolar, emigração venezuelana, etc. Enfim, tudo. (Ou melhor, quase tudo).
Incêndio no Museu Nacional no dia 2 de setembro de 2018
(Fotografia do site do jornal "El País")
            Pouco se falou sobre “cultura”. E dentro deste pouco, a generalização foi dada à “Lei Rouanet”. Entre posts mais polêmicos, o que se via eram comentários sobre fraudes e corrupções nesta lei, além de ataques violentos à classe artística (como se fossem eles os culpados). Como se a Lei Rouanet fosse o único problema e assunto exclusivo na pasta da “Cultura”. Pouco (ou nada) se viu ou se falou sobre literatura, cinema, teatro, dança, artes plásticas e as outras tantas linguagens culturais. Menos ainda sobre museus, arquivos e história. (Somente no trágico incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro).
            Pelo menos naquele momento, o tenebroso incêndio no Museu Nacional talvez tenha levantado questionamentos na imprensa sobre a real situação dos museus no Brasil. Mas isso não foi o suficiente, pois segurança e estrutura não são os únicos problemas que os “templos históricos” enfrentam. É só olhar para nossa região – o interior paulista – e observar quantos museus estão fechados ou funcionando inadequadamente: com quadro reduzido de funcionários (alguns sem qualificação), sem limpeza e higienização, sem reserva técnica, sem estrutura de arquivo e com horários limitados de atendimento (isso quando os telefones funcionam), sem projetos educacionais e digitalização de acervo.
            Se os governos municipais, muitos esgotados em dívidas, não conseguem melhorar tal situação, o governo estadual tão pouco. Agora, com a possível extinção do Ministério da Cultura, a dúvida é: o que esperar de melhora neste setor no Brasil? Somente a esperança de que as pessoas e os governantes entendam que cultura também alimenta. Nutre. Educa. Não só o cérebro; assim como a economia.
          
Link da publicação no jornal O Diário:
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80406/MUSEUS-E-CULTURA-O-QUE-ESPERAR

sábado, 22 de dezembro de 2018

RELÓGIO DA MATRIZ: O REGULADOR PÚBLICO

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 19 DE DEZEMBRO DE 2018 (página 2) PELA PROFª KARLA ARMANI 


Praça da Matriz nos anos 1920, quando o relógio ainda 
não existia na torre da matriz.
(Fonte: Arquivo do Museu "Ruy Menezes")
 “Hoje as nossas ruas, posto que não sejam calçadas, estão regularmente decentes: vemos os largos principaes – da Republica e Matriz, symetricamente arborizados com abundancia d’agua [...]. Entretanto, força é confessar, ressentimos ainda dum melhoramento, que é inadiável [...]. Referimo-nos a um bom Regulador Público, que, como em toda a communhão  social, se encontra no fontisfício da egreja principal”.
(“O Sertanejo”, 4 de outubro de 1906, p. 2).

            Era o ano de 1906 quando o jornal “O Sertanejo”, com edição de Mário de Oliveira e redação de Elias Pimenta, publicou esta reportagem vislumbrando a instalação de um relógio na torre da matriz de Barretos; hoje catedral. “Inadiável”, segundo seus dizeres. Mal sabiam eles, que tal “melhoramento” demoraria vinte anos para acontecer. Já que fotografias e a obra “Coração de Barretos” (J. P. Lombardi), deixam claro que o relógio só foi instalado numa das torres da igreja entre 1926 a 1928. 20 anos depois!

            Mais do que a demora da instalação do relógio em relação ao texto de 1906, o intrigante é como o mesmo era tido como necessário: “Um regulador publico no centro duma cidade, é o thermometro que encaminha os operários para a atividade do trabalho. Não é tudo: marca as horas das refeições, ensina o espaço de tempo prescripto pelo medico para um pobre que não tem relógio dar remédio a um doente; guia o roceiro da hora em que chegou a cidade e o orienta daquela em que deve regressar a seu lar”, p. 2.

Matriz de Barretos com o relógio Michellini já instalado.
(Fonte: Arquivo do Museu "Ruy Menezes").
            Naquela época, Barretos não tinha energia elétrica, nem estação ferroviária, o paço municipal ainda estava em construção e o serviço de água era deveras polêmico. Por outro lado, a pecuária fazia girar o comércio, médicos, professores e advogados já se viam por aqui, assim como casas comerciais e instituições de diversas naturezas. E, por isso, o belo relógio Michelini ali instalado na década de 20 não representava tão somente a passagem das horas e o badalar do sino; era ele o símbolo do tempo da “urbanidade”, o anúncio de “civilização” para aquela cidade que se “despia de suas vestes sertanejas”

Fonte:
O SERTANEJO, jornal hebdomadário de Barretos, ano 1906. Arquivo do Museu "Ruy Menezes".

Link da publicação no jornal "O Diário": 
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80250/RELOGIO-DA-MATRIZ-O-REGULADOR-PUBLICO

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

VALDOMIRO SILVEIRA, O CONTISTA REGIONAL (PARTE II)

ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 11 DE DEZEMBRO DE 2018, PÁGINA 2.


            O primeiro conto do regionalista Valdomiro Silveira foi publicado num jornal de Casa Branca, aos 14 anos. Somente em 1920, publicou seu primeiro livro “Os Caboclos”; seguido por “Nas Serras e nas Furnas” (1931), “Mixuangos” (1937) e “Leréias: histórias contadas por eles mesmos” (1945, obra póstuma). Conforme seus contemporâneos, parte dos contos era publicada em jornais do interior. O nosso “O Sertanejo” foi um deles, já que não só de política tratava o jornal barretense, literatura era também constante por ali.
            Em 1903, quando fazia somente dois meses que a direção do jornal “O Sertanejo” tinha sido transferida do Cel. Silvestre de Lima para o dr. Antônio Olympio (ambos republicanos, mas com posições e lideranças diferentes), os contos de Valdomiro começaram a ser reproduzidos no jornal. Nos meses de maio e agosto, o jornal “O Sertanejo” publicou os contos “Ao correr das águas”, “Com deus e as almas” e “Truque”.
            Não há como não ler seus contos no jornal, visto a linguagem ser tão fidedigna às expressões da época. Chama a atenção. É envolvente a leitura. Nos três contos, os narradores são de alguma maneira relacionados ao passado, os personagens pertencentes ao mundo rural e caipira, e o cenário relacionado à natureza, rios, ribanceiras, matas, pousos e estradas. O conto “Com deus e as almas”, por exemplo, é tão real ao falar dos tropeiros, que chega a citar pousos em cidades, distritos e fazendas perto de nossa cidade, como “Franca”, “Olhos D’Agua” e “Estiva”. Esta habilidade em reproduzir a fala e o universo do caipira, segundo uma obra da filha de Valdomiro – Júnia Silveira Gonçalves – foi adquirida em anotações que seu pai fazia em festas populares e quermesses, as quais participava enquanto vivia no interior de São Paulo, quando fora promotor público.
O fato de reproduzir a oralidade caipira de forma literária, tornou-a passível de estudo e cientificidade. Criou uma memória caipira original, pertencente a identidade regionalista de São Paulo, e ao mesmo tempo, verteu o olhar para o caipira sem estigma. Eternizou a oralidade caipira para o futuro. E cá estamos, estudando-a. [fim].

Fontes:
O SERTANEJO, periódico hebdomadário de Barretos. Edições entre maio a agosto de 1903. Acervo do Museu "Ruy Menezes".

Link da publicação no jornal "O Diário":
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/80041/VALDOMIRO-SILVEIRA-O-CONTISTA-REGIONAL-PARTE-II

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

VALDOMIRO SILVEIRA, O CONTISTA REGIONAL (PARTE I)

ARTIGO PUBLICADO PELA PROFª KARLA O. ARMANI NO JORNAL "O DIÁRIO DE BARRETOS" EM 05 DE DEZEMBRO DE 2018


Valdomiro Silveira
(foto do site "uol")
            Republicano e partidário, “O Sertanejo” - primeiro jornal de Barretos -, nascia no ano de 1900 como uma folha que noticiava, sobretudo, política; os sonhos e as desilusões da jovem República que se anunciava no Brasil desde 1889. Entre algumas notas sociais sobre eventos, viagens, nascimentos, casamentos, funerais, quermesses e visitantes ilustres, vez ou outra, o jornal publicava alguns folhetins literários.
            Dentre os literatos ali citados, um desperta a atenção por sua particularidade: a linguagem caipira. Sua escrita reproduzia a oralidade do caipira, junto com seus personagens e o universo rural. Chamava-se Valdomiro Silveira. Ao pesquisar o nome de tal contista na atualidade, é notada a grandeza de seu trabalho literário ao legado paulista.
            Nascido em Cachoeira Paulista, em 1873, Valdomiro passou sua infância no interior, mas formou-se em 1895 em Direito na Faculdade do Largo São Francisco na capital, conforme a maioria dos intelectuais letrados da época. Conta a historiadora Célia R. da Silveira, em seu mestrado (1997), que ao cursar a faculdade, o distanciamento do mundo rural permitiu que o contista passasse a enxerga-lo com nostalgia e sentimento. Características ímpares de sua literatura. Aliás, Silveira pertencia a uma geração de autores nacionalistas – literatos, historiadores e antropólogos – que escrevia a fim de elaborar uma identidade cultural ao paulista. Identidade esta, a qual em tempos remotos era associada aos “heróis bandeirantes”, mas que naquele alvorecer do século XX, tendia a outro personagem igualmente rural e desbravador da natureza: o caipira.
            Contudo, de todos os autores, Valdomiro Silveira se diferenciava por colocar o “caipira” como personagem autêntico, com feição de brasilidade. Isso não se evidenciava somente pela descrição da fala original caipira, mas também pela recriação poética do universo rural; que naquele período tornava-se “obscuro” pelos traços iniciais da economia de mercado e urbanização. Era assim que, em seus contos, Valdomiro evidenciava o passado como um tempo melhor que o presente. [continua].

Fontes e bibliografia:
O SERTANEJO, periódico de Barretos. Edições de 3/5/1903, 17/5/1903 e 23/8/1903. Acervo do Museu "Ruy Menezes".
JORNAL O LINCE (site). Artigo: SILVEIRA, Célia Regina. "A epopeia caipira em Valdomiro Silveira". 

Link no site do jornal "O Diário": 
http://www.odiarioonline.com.br/noticia/79868/VALDOMIRO-SILVEIRA-O-CONTISTA-REGIONAL-PARTE-I