terça-feira, 5 de abril de 2011

DR. MEIRA NA PEQUENA GRANDE BARRETOS




ARTIGO PUBLICADO POR KARLA O. ARMANI NA REVISTA "AÇÃO E VIDA DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE BARRETOS" EM 3 DE ABRIL DE 2011.

Elsa Lucia de Meira, filha única do médico Aldemar de Meira, que atuou nas enfermarias da Santa Casa na década de 40, se emociona em recordar o trabalho vivenciado pelo pai em épocas remotas do hospital. Um passado em poucas linhas...

            Em entrevista, Elsa Lucia de Meira, filha do dr. Meira, como era conhecido, contou suas recordações que, na verdade, são memórias que ela guarda diante às histórias que seu pai lhe contava, sobre partes da biografia do médico mineiro e sua relação com a Santa Casa de Barretos. Trata-se de uma história que se inicia nos anos 30 no hospital e que repercutiu duas citações de outras entrevistas registradas nesta revista. Afinal, o dr. Meira muito tempo ficou na Santa Casa e seu trabalho ainda é lembrado por alguns barretenses e retratado no presente como uma maneira de ilustrar parte dos noventa anos do hospital. Partiremos, então, do princípio de que as recordações de Elsa são como peças de um quebra-cabeça e como montá-lo seria a interpretação que nós, leitores, daremos à entrevista.
            “Papai nasceu no dia doze de janeiro de 1899, em Belo Horizonte. Era filho de Justino Augusto de Meira, dono de minas de ouro e escravos. Se casou com mamãe, também Elsa de Meira, em dezenove de março de 1927, e tiveram uma única filha, eu, nascida em Patos de Minas no ano de 1935”, começou a explicar Elsa. A mesma ainda destacou que, desde muito cedo, seu pai tinha paixão por Medicina e então conseguiu cursar a Faculdade Federal de Medicina de Belo Horizonte e, simultaneamente, trabalhar no Instituto Ezequiel Dias – um pólo de tecnologia e pesquisa na área da saúde. Aldemar de Meira tornou-se “doutor” em 1927, quando se formou na faculdade e especializou-se em Cirurgia e Ginecologia e Obstetrícia.
            Antes de vir a Barretos, sua história com o Estado de Minas Gerais é reconhecidamente interessante, uma vez que é citado por memorialistas mineiros como Pedro Nava. Uma de suas passagens fez parte da rivalidade entre paulistas e mineiros nos anos 30, onde Aldemar de Meira foi capitão-médico da Revolução Constitucionalista de 1932, chegando até Sorocaba, lutando pelo lado das tropas federais de Getúlio Vargas. Outro caso interessante é a participação de Aldemar de Meira na fundação do “América Futebol Clube”, um dos mais amados times do Estado de Minas Gerais. “O América foi fundado bem dizer no porão da casa do meu avô, entre os membros fundadores estavam o meu pai e meu tio, Alcides, sendo o meu pai o secretário da primeira diretoria do clube. Eles contavam que foi muito engraçado a escolha do nome do clube, entre muitos nomes sugeriram até “Arlequim”, imagina só... ainda bem que, em sorteio, a tia do meu pai sorteou AMÉRICA, assim em letras maiúsculas!”, disse carinhosamente Elsa.    
            Depois desses acontecimentos ainda no Estado de Minas Gerais, Aldemar de Meira mudou-se para Barretos no ano de 1936, quando Elsa era um bebê. Quando perguntamos sobre o motivo da família ter vindo para Barretos, ela sorriu e disse que foi por um guia espiritual de Patos de Minas, o qual disse que Barretos “era uma cidade pequena grande” e o dr. Aldemar deveria seguir viagem rumo a esse destino. O resultado foi a mudança da família para Barretos e a chegada do dr. Meira na Santa Casa no fim dos anos 30, quando o hospital passava pela construção do Pavilhão Titinha Franco.
            A atuação do dr. Meira na Santa Casa não se restringiu somente ao corpo médico, do qual ele foi diretor-clínico nos anos 40 e introduziu melhoramentos nos setores de transfusão de sangue. Aldemar de Meira também fazia parte de comissões organizadoras de eventos como quermesses, bingos e outras festas para angariar fundos em prol de atividades da Santa Casa. “Lembro-me das quermesses que a Santa Casa fazia na Praça Francisco Barreto, eu era menina e acompanhava meu pai... era muito bom”, recordou Elsa. 
            Além disso, o dr. Meira foi membro fundador da “Sociedade Médica da Santa Casa de Misericórdia de Barretos”, criada em 3 de maio de 1942, com finalidade de interagir as experiências médicas do hospital e os avanços da medicina da época entre os membros do corpo clínico. No registro do primeiro boletim da Sociedade Médica consta a nomeação do dr. Aldemar de Meira como tesoureiro, e, assim soam as palavras na ata: “Como tesoureiro, temos um mineiro, símbolo de honestidade e de segurança, na pessoa de Aldemar de Meira”.
            Quantas histórias o dr. Aldemar de Meira teria para nos contar? É o que sua filha também se pergunta depois de mais de quarenta anos vendo seu pai se dedicar tanto à Santa Casa, “papai foi o primeiro médico a usar penicilina em Barretos, ele tratou de um paciente que tinha osteomielite e este acabou sendo curado. Além disso, ele chegava a dormir no hospital quando tinha alguma parturiente para cuidar”, disse Elsa. Dr. Aldemar de Meira, médico mineiro que trabalhou quatro décadas na Santa Casa de Barretos, conhecedor das línguas alemã, francesa e inglesa, na sua personalidade e experiência de vida deixou-nos a sua memória, que, por meio de sua filha, resulta na composição de partes da história do hospital. Nossos sinceros agradecimentos.

REFERÊNCIAS: Entrevista com Elsa Lucia de Meira no dia 24/1/2011. Pesquisas em atas e boletins médicos dos anos 40 pertencentes ao acervo da Santa Casa de Barretos

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